10/07/09

Hang the DJ


"Apartment story", The National

"...Hold ourselves together with our arms around the stereo for hours
While it sings to itself or whatever it does
when it sings to itself of its long lost loves
I’m getting tied, I’m forgetting why

Tired and wired we ruin too easy
sleep in our clothes and wait for winter to leave
but I’ll be with you behind the couch when they come
on a different day just like this one..."

08/07/09

O camisa 10

Lembro do dia do jogo, vagamente, afinal lá se vão 30 anos. Mas recordo que fiquei com medo de uma goleada. Afinal, o Flamengo era o time do Zico. Eu, torcedor do Palmeiras, apenas começava a entender o futebol e achava que não daria para vencer no Maracanã. Qual não fui minha surpresa quando abri o jornal no dia seguinte e lá vi que o Palmeiras não só havia vencido a partida como também aplicara um 4 a 1 que não deixava dúvida.

O time do Zico era falível, mestre Telê provava. Está certo que depois daquele jogo o Palmeiras foi só ladeira abaixo, movimento inverso ao do Flamengo. Telê saiu, foi para a seleção, consagrou-se paralelamente ao esquadrão rubro-negro, campeão brasileiro no ano seguinte, para depois conquistar a América e o mundo.

Naquele tempo, em que os ídolos alviverdes sumiam e a falta de títulos mergulharia o time num quase ostracismo, Zico era um alívio. Era o Pelé da minha geração, assim como Flamengo era o Santos - claro, guardada a devida proporção. Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, assistir a um jogo do Flamengo era diversão, prazer, algo que poucos times conseguiram legar nos últimos 20 anos - o Palmeiras de 1996?

Nunca vi num estádio Zico com a camisa do Flamengo, só assisti com a da seleção brasileira, um jogo contra a Bolívia no Morumbi, em 1985. Foi meu ídolo da seleção de 1982 - era tanta a admiração que lembro até hoje que nosso time de futebol, lá da rua onde morava, decidiu que ninguém poderia colocar o 10 na camisa do Brasil, pois todos queriam ser Zico; eu, então, optei pela 6 do Júnior.

Zico era a referência, o cara para quem se torcia independentemente da camisa, algo raro hoje - quem reuniria o talento e o carisma de Zico para superar barreiras clubísticas? Ídolos há aos montes, mas talento falta. Kaká? Cristiano Ronaldo? Ronaldinho Gaúcho? Messi? Quem sabe Zidane... Todos lá fora. Ronaldo? Reconheço que aquele primeiro gol contra o Santos, na Vila Belmiro, foi digno de Zico, dominar um chutão, fazer com que a bola fique grudada, é coisa de Zico. Mas, pena, não é mais o Ronaldo das arrancadas, esse sim talvez rompesse barreiras.

O documentário "Zico na Rede", de Paulo Roscio, reativa a memória e mostra o quanto ele era mágico, um sopro nos 15 anos em que ficamos órfãos do seu futebol, após a despedida definitiva do gramado. Zico explica como fazia os gols, suas manhas, estratégias, malandragens. Enquanto ouvimos seu depoimento e o de companheiros e jornalistas, os olhos se deliciam com gols, gols de falta, de cabeça, de improviso, decisivos, importantes, comuns, gols de tudo quanto é jeito, gols que não fez, mas deu a companheiros - Nunes na final do Mundial...

Renato Maurício Prado define com perfeição a genialidade de Zico - "O lance genial nasce de uma dificuldade absolutamente inesperada" -, o jogador capaz de transformar adversidades em pura magia. A bola que quica no gramado e muda sua trajetória é a desculpa para um gol de placa - contra o Paraguai. Um passe que sai numa velocidade inferior faz com que Zico raciocine rapidamente e mergulhe para marcar aquele que ele chama de o gol mais bonito de sua carreira, com a camisa do Kashima, um gol apelidado de "escorpião".

Pena que o filme esteja somente em um cinema em São Paulo e em outro no Rio de Janeiro. Na capital paulista, apenas uma sessão, para os cariocas, duas sessões, sempre na hora do almoço. Ver Zico jogar e marcar na tela grande é prazer certo - o futebol na tela grande nos dá outra dimensão, assim foi com "Pelé Eterno".

E aquela hora do almoço passa sem se perceber. São exatos 58 minutos em que o futebol reencontra o talento, reaquece a memória e lembranças do garoto que viu, uma vez no campo e dezenas pela TV, o maior jogador de sua época atuar e fazer história.

Última chance

Na grade de programação dos cinemas, nada muito interessante que salte aos olhos e me faça sair de casa para assistir. Uma certa preguiça da produção atual, pouca coisa de interessante, é preciso vasculhar e cavar para achar algo.

Eis que uma comédia romântica (talvez uma definição simplista demais, pois não é tão comédia assim, e só um pouco romântica) se entrega como opção, "Tinha que ser você" ("Last chance Harvey" no original).

Dustin Hoffman é Harvey, pianista de jazz frustrado e entregue à produção de jingles publicitários, tem que viajar a Londres para o casamento da filha. Sua vida parece então desmoronar quando é descartado do atual círculo familiar, composto pela ex-mulher, seu novo marido, o noivo, seus amigos, todos de outro país, que convivem diariamente e desconhecem a vida do ex que veio dos Estados Unidos.

Seu caminho vai cruzar com o de Emma Thompson (Kate), chefe do departamento de pesquisas de Heathrow, solteira quase cinquentona, que vive a desvendar os delírios da mãe e a atender seus seguidos telefonemas. Também desiludida, não consegue encontrar novos círculos sociais, não sobrevive ao necessário entrosamento que uma nova companhia pede.

Vive seu cotidiano de leituras, aulas de redação e traslados de trem.

Esses dois mundos dispersos, de idades distantes (não há menção às idades dos protagonistas, mas imagina-se um Harvey com seus 60 e tanto e Kate com seus 40 e tanto), cedem ao primeiro encontro, casual, e resistem às pressões iniciais.

Talvez não resista a uma decepção, mas pode se solidificar com a conversa sincera.
O filme tem diálogos reais, situações reais - peca ao aproveitar clichês, poucos, como quando Kate vai experimentar vestidos de festa - e atores em excelente forma. Hoffman e Emma entregam uma atuação comovente, sem exageros, sem vícios. Escapam de usar a diferença de idade para qualquer tipo de pretexto - ela existe, eles sabem e mencionam apenas para registrar, de fato, isso não vai importar para nada entre eles, nunca foi problema desde o início.

É raro encontrar um filme enxuto como "Tinha que ser você", em que emoções podem ser explicitadas na tela sem que o espectador se sinta obrigado a se envolver. O envolvimento existe, de forma natural, conquistado pela história bem contada.

Londres surge em grande forma, e a opção do diretor Joel Hopkins em fugir dos pontos tradicionais do turismo ajuda e muito na empatia. Vemos o casal percorrendo lugares próprios de Kate, onde ela vive, conhece e se reconhece - uma ambientação da cidade como lugar real.

Enfim, nada melhor do que ver um filme que possa ser contado em 90 minutos, sem firulas, sem enrolação. Apenas uma história bem conduzida, que gera um sorriso no final e algumas cenas e diálogos gravados na memória.

07/07/09

25 de janeiro de 2007

O post com o documentário sobre Arnaldo Baptista me lembrou de um texto que escrevi para o jornal "O Tempo", quando os Mutantes se apresentaram no aniversário de São Paulo de 2007. Era a primeira apresentação no Brasil em mais de 30 anos e a primeira depois do retorno de 2006.
***
Neste ano, não houve Ipiranga com São João, como em 2004. Também não foi no Pátio do Colégio, o local onde São Paulo nasceu em 1554, que aconteceu a principal comemoração do aniversário da cidade. No 25 de janeiro de 2007, aos 453 anos, São Paulo festejou no parque da Independência.

Esta cidade, que enfrenta uma espécie de inferno astral, precisou ir até a Independência, no lugar onde dom Pedro 1º, depois de vencer uma dor de barriga nos arbustos à margem do riacho Ipiranga, gritou a máxima brasileira. São Paulo foi tentar comemorar um pouco.

Depois de exatos 11.190 dias os Mutantes se apresentaram em um palco brasileiro. No aniversário de São Paulo, essa banda paulista de certidão renasceu na cidade de onde lendas e mitos surgiram na virada dos 1960 para os 1970. Fundamentais para a música produzida no Brasil desde então, os Mutantes tocaram num palco armado em frente ao Museu do Ipiranga – rebatizado de Museu Paulista, nome que dificilmente vai “pegar”, pois demagogo –, depois de Nação Zumbi e Tom Zé.

Quando, às 20h23, os quatro mutantes - Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Dinho e Zélia Duncan - desceram as escadas do Monumento à Independência, caracterizados como portugueses – Arnaldo como jesuíta –, e pisaram no palco, o que aquelas 50 mil pessoas (projeção da PM, 80 mil para os organizadores) começaram a ver era uma banda bem-humorada, com um repertório rico e pouco ouvido.

Quem ouve Mutantes hoje? Talvez a banda não seja grande vendedora de CDs, mas sua influência ultrapassou fronteiras, logo depois de arrebentá-las por estas terras. Se existe rock, música popular, mangue beat e afins no Brasil, é porque existiram Mutantes. Muito do que se ouve hoje deve a alma aos discos dos Mutantes. Além-mar, Kurt Cobain, Belle & Sebastian, David Byrne e Beck são alguns dos fãs da banda. Conheça ou não suas músicas, o que você escuta hoje, qualquer coisa, tem no DNA a herança mutante.

Assim, quando Tom Zé entrou no palco para cantar “2001” e “Qualquer Bobagem” – a novidade da setlist –, o público vibrou. Mais do que parceiro nas composições, era uma forma de homenagem de fãs, influências e contemporâneos.

Arnaldo Baptista já não tem a mesma presença de palco. É verdade, o show mostrou que ele não se locomove nem participa com desenvoltura no palco. Seu microfone está mais baixo do que os demais. Fazem relação com Brian Wilson, outro “maluco” gênio que voltou a se apresentar e a gravar – seu show de 2004, no TIM Festival, foi histórico.

Arnaldo Baptista, autoexilado em Juiz de Fora, recomeçou a surgir em 2004, quando lançou “Let it Bed”. Da sua tentativa de suicídio em 1982, do afeto que ronda sua relação com Rita Lee, ressurge o “lóki”, como Brian Wilson mexeu no baú para soltar “Smile”, o disco perdido do Beach Boys.

Arnaldo é ovacionado uma, duas, três vezes. Seu nome é gritado pela platéia. Emociona ao cantar “Dia 36” – “Tudo começa outra vez, esquece e não pensa mais”.

Chega “Balada do Louco”. Um arrepio toma conta de quem está no parque da Independência. Sérgio Dias apresenta a banda em “A Minha Menina” e diz: “É um grande prazer poder dizer ‘nós somos os Mutantes’”. E fecha: “Este show é a prova de que tudo é possível”.

Após o bis de “Bat Macumba” e “Panis et Circences”, o show deveria terminar, mas o público não arreda o pé, e os técnicos religam os equipamentos. A banda volta para repetir “Balada do Louco”. E vai embora.

Ao redor, assim foi o show. Lá no meio do espetáculo, quando “Cantor de Mambo” começou, dedicada a Sérgio Mendes, um grupo de crianças, ao lado do palco, começou a brincar de roda. Dançou por mais quatro, cinco canções. A chuva, que castigou a cidade pela manhã e deixou algumas áreas em estado de atenção, deu uma trégua. O que se viu foi uma ameaça constante não acontecer, e apenas uma névoa tomou conta do Ipiranga. O pessoal da limpeza parava por momentos para assistir ao show, na área em frente ao palco. No meio da apresentação dos Mutantes, o Corpo de Bombeiros localizou a sétima vítima do acidente do metrô.

São Paulo continua. “Vivemos na melhor cidade da América do Sul”, mas “as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”. Talvez a alegria que tomou conta da platéia seja efêmera, “mas louco é quem me diz e não é feliz, eu sou feliz”.

Ô cidade sofrida...

* Aparte para contextualizar. Naquele janeiro, a cidade sofria, para variar, com as fortes chuvas de verão e os constantes alagamentos. E convivia com a tragédia do desabamento do buraco do metrô.

Pensam que sou louco...

Poucos artistas se permitem abrir em entrevistas, longos perfis ou documentários. No Brasil, esse "controle" de imagem é intenso, como se a preservar uma privacidade que a profissão extingue.

Arnaldo Baptista, em "Loki", permitiu-se. O documentário, vencedor do voto popular na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, narra a trajetória do compositor, de sua juventude até o retorno dos Mutantes.

O filme é conduzido pelos depoimentos de Baptista, entremeados pela pintura de um quadro - exibido por completo no final. Ele não poupa nenhum assunto, trata do amor por Rita Lee com rara lucidez, fala do fim do casamento, da tentativa de suicídio e da sua recuperação, ajudado pela atual mulher, Lucinha Barbosa, no exílio de Juiz de Fora.

O filme vai fundo tanto na música como nas relações com Rita e as drogas para compor o quadro. Para falar da música, convoca gente como Lobão, Rogério Duprat (em entrevista de arquivo), Gilberto Gil, Tom Zé, Nélson Motta, Sean Lennon e Kurt Cobain (arquivo). Parceiros de banda (Dinho, Liminha e Sérgio Dias) se unem a Zélia Duncan para explicar o papel de Arnaldo na história da banda - Rita Lee não quis participar do filme

(Ah, Caetano Veloso não fala, nem em imagem de arquivo... Talvez seja o único artigo produzido no Brasil em que CV não mete o bedelho.)

"Loki" lança cenas gravadas no histórico show que os Mutantes deram em São Paulo em 2007, para demonstrar a reverência dedicada a Arnaldo Baptista, em imagens que marcaram a cidade naquele ano.

Artista raro na discografia nacional, Arnaldo influenciou gerações de músicos no Brasil - ecos se encontram até hoje. Ao mesmo tempo, é desprezado pela indústria. Não existe um disco solo de Arnaldo em catálogo. Seu retorno às composições, "Let it Bed" (2004), produzido pelo pato fu John, foi lançado pela revista de Lobão, "Outra Coisa", já extinta. "Lóki?", considerado por muitos dos entrevistados como um dos melhores álbuns gravados no Brasil, teve tiragem pela Baratos Afins e sumiu. Arnaldo Baptista é ignorado no Brasil.

O documentário tenta colocar as coisas no lugar. Produzido pelo Canal Brasil, tem poucas cópias em exibição. Pena, merecia mais espaço nos cinemas, na TV. Talvez o DVD venha compensar.
No final, temos a sensação de ter assistido um filme de amor. Do amor por Rita Lee, por sua atual mulher, pela música, pela vontade de sobreviver. Algumas feridas não se fecham, mas permitem reconhecer os caminhos a seguir.

06/07/09

Capas de tijolo

A coisa está espalhada por aí. É divertido ver capas de discos refeitas com legos. Neste link tem um acervo dessa recriação.

As melhores são do Belle & Sebastian. Há também uma boa coleção de Beatles e Bob Dylan, coisas de Iron Maiden, Motörhead, Lily Allen e por aí vai.

05/07/09

Observações - O negócio da morte

Parece uma pousada daquelas instaladas na montanha, assim que se chega ao portão. Colinas verdes, um silêncio raramente incomodado pelo barulho da rodovia próxima. Seguranças na entrada indicam onde estacionar e para onde se dirigir.

"Velório na sala 5."

É um complexo pensado para a morte. Dezenas de vagas de estacionamento, a tradicional capela ecumênica e os locais de velório. A partir daí começam os tais "diferenciais" que equipes de marketing adoram repetir.

Um salão enorme, com sofás espalhados, um local que alguém mais modernoso chamaria de lounge. Silencioso e gelado, sem decoração, apenas os sofás. É chamada de sala de estar. Uma lanchonete. Serviços pontuais. Floricultura, "a preços acessíveis", como diz a plaquinha que se repete a cada canto do complexo.

Plaquinha que diz também para você procurar a equipe de vendas, insistentemente. Em todo o lugar em que se anda é possível encontrar a plaquinha chamando para a equipe de vendas. Dá a sensação de que eles têm medo de perder clientes caso saiam de lá sem passar no plantão de vendas. Afinal, quem voltaria lá apenas para comprar uma gaveta, disponíveis em seis modelos - duas delas, inclusive, com área de serviço.

Fico imaginando o que seria essa tal área de serviço no subsolo, ao lado de caixões.

Tem também um sala de velório vip, claro. Se em todo lugar existe um canto vip, por que no final da história também não haveria um?

A paisagem é limpa, verde, plana, nada daqueles mausoléus imponentes. Nada, só uma lápide no gramado, homogeneizado. Na colina, centenas de campas. Os vasos de flores indicam os que estão ocupados. Nos canteiros, regadores pendurados em ganchos, com torneiras ao lado, estão disponíveis para o visitante.

E ao longo do trajeto, da parte baixa do complexo até a parte alta, onde estão os gramados, mais placas. Tudo bem orientado.

O morto tem cep, que indica a colina, a quadra e a campa. Ficamos sabendo, pelas placas que só é permitido colocar até seis vasos, desde que pequenos. Que as flores devem ser escolhidas de forma a não destoar do conjunto. Flores de plástico, então, são proibidas de um jeito peremptório.

Não é permitido dar gorjeta aos funcionários com a intenção de obter serviços "diferenciados" - o mesmo "diferenciado" que o complexo vende como vantagem é proibido caso o visitante tente encontrar uma atenção a mais. Nada de "suborno", então, ou, quem sabe, "corrupção", por lá não pode. Assim, na hora da morte, todos têm os mesmos direitos e, pelas orientações das placas, os mesmos deveres.

Quando dizem que o enterro será às 10h, tenha certeza de que será às 10h, nem 10h01, nem 9h59. Estará tudo pronto.

No silêncio da colina, apenas o barulho de cimento, pás e carrinho de mão - algo que, imagino, em breve será suprimido para que o visitante possa ter o silêncio absoluto. Claro que o complexo teria que desapropiar os moradores do morro vizinho, um amontoado de moradias típico da periferia de São Paulo, que já começaram a preparar o almoço de domingo com um pagode audível a centenas de metros.

Assim, depois de uma madrugada gelada, passada num velório, os visitantes se despedem e retomam a vida. Vida que segue pela estrada.

Pois São Paulo já não consegue enterrar seus mortos na própria cidade. Para tal, toma-se a rodovia, alguns pagam até pedágio para apresentar seus cumprimentos ou para lembrar de quem se foi. Os cemitérios estão imigrando, deixando a cidade, procurando lugares ermos.

Mas a cidade insiste em persegui-los. O pagode ao lado da colina não sai da cabeça.

Como não sai da memória o triste ritual cristão de velar um corpo por horas. Um caixão aberto, com parentes e amigos a acompanhá-lo enquanto não chega a hora do enterro ou da cerimônia de cremação. Durante horas. O sofrimento encontra sua pior tortura, pois o caixão não deixa escapá-lo.

Então, encontramos abrigo nas conversas periféricas, para escapar daquela tênue tensão que o caixão aberto emite - e emitirá até a hora do enterro. Agora, a tensão se encontra com os constrangimentos, com conversas de táxi ("tá frio hoje, né", "parece que vai esfriar mais amanhã", "precisava ver de madrugada"), futebol e, a pior de todas, perguntas da vida pessoal.

Pessoa que você nunca viu - pelo menos não lembra nem de passagem - te chamam pelo nome e perguntam do seu trabalho. Só que falam de um cenário de cinco anos atrás, e aí é preciso explicar tudo o que aconteceu de lá para cá. Alguns fazem perguntas retóricas apenas para ter certeza de que estão falando com a pessoa certa ou para mostrar que se lembram de algo - "Mas você mora em Pindamonhangaba, né", "Como vai seu trabalho no consultório, é isso, certo?".

Padres fazem perguntas na missa final, aos presentes, como se alguém, naquele momento, estivesse disposto a prestar depoimento, depois de mais de 14 horas de velório, um frio de rasgar, pão de queijo insosso e cafés aos litros.

Pergunto-me para quê tanto sofrimento. Se a morte já é por demais dolorida, por que deixá-la mais para quem fica? Lembro de um filme - talvez "Por uma noite apenas", de Mike Figgis... - em que o personagem de Robert Downey Jr. pede para que sua morte não seja velada, quer uma festa, com música, dança e bebida, e os amigos assim fazem.

Os complexos capitalizaram a morte e hoje são grandes negócios.

Nós, enquanto isso, ficamos a buscar o sofrimento na morte. Já basta a própria.

03/07/09

Hang the DJ


"Rise", PIL.

"They made these feelings go away,
Model citizen in every way
May the road rise with you"

02/07/09

Do gol ao culto 2

Do blog de Mauricio Stycer.

***
As cenas de fervor religioso exibidas pela seleção brasileira depois da conquista da Copa das Confederações ainda repercutem no mundo. Ao ver os jogadores brasileiros ajoelhados rezando no meio do gramado, comandados pelo zagueiro Lucio, um narrador da rede britânica BBC observou que o capitão da seleção “parecia um pregador evangélico pela emoção com que proferia cada palavra”. Em texto publicado em seu blog, no site da BBC, o jornalista Ricardo Acampora escreveu:

“Num lugar como a Grã-Bretanha, onde o povo está acostumado a conviver respeitosamente com diferentes religiões, surpreende o fato de atletas usarem a combinação entre um veículo de grande penetração como a televisão e a enorme capacidade de marketing da seleção brasileira, para divulgar mensagens ligadas a crenças, seitas ou religiões.”

E disse ainda:

“Se arriscam a serem confundidos com emissários de pregadores dispostos a aumentar o número de ovelhas de seus rebanhos às custas do escrete canarinho, como emissários evangélicos em missão. Para os críticos deste tipo de atitude, isso soa oportunismo inadequado e surpreende ver que a Fifa não se opõe a que jogadores se descubram do “manto sagrado” que os consagrou para exibir suas preferências religiosas.”

A repercussão negativa não se restringiu à Inglaterra. O jornal “O Estado de S.Paulo” informa nesta quinta-feira que a Fifa “mandou um alerta à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pedindo moderação na atitude dos jogadores mais religiosos”. Escreve o jornalista Jamil Chade:

“Com centenas de jogadores africanos, vários países europeus temem que a falta de uma punição por parte da Fifa abra caminho para extremismos religiosos e que o comportamento dos brasileiros seja repetido por muçulmanos que estão em vários clubes europeus hoje. Tanto a Fifa quanto os europeus concordam que não querem que o futebol se transforme em um palco para disputas religiosas, um tema sensível em várias partes do mundo. Mas, por enquanto, a Fifa não ousa punir a seleção brasileira.”

Ouvido pelo jornal, Jim Stjerne Hansen, diretor da Associação Dinamarquesa, confirmou que pediu à Fifa que tome providências no sentido de reprimir manifestações como as realizadas pela seleção brasileira na África do Sul.

Como no domingo, depois de Brasil e Estados Unidos, nesta quarta-feira, ao final de Corinthians e Internacional, alguns jogadores da equipe paulista vestiram sobre o uniforme uma camiseta com as palavras “I Love Jesus”. Mas, diferentemente do que ocorreu na Copa das Confederações, foram manifestações isoladas, e não houve em campo nenhum ato religioso promovido pelo grupo corintiano.

Aula virtual

O YouTube colocou no ar um canal chamado Reporters' Center. Que vem a ser um canal em que jornalistas dão dicas sobre a prática do jornalismo. Parte do princípio que o chamado jornalismo cidadão irá assumir boa parte das rédeas, pelo menos no mundo digital - e já não assumiu? O canal quer melhorar a qualidade do que jornalistas cidadãos colocam na rede.

Nomes como Bob Woodward e Arianna Huffington, editores da Associated Press e centros de jornalismo norte-americanos se juntam para ensinar a prática. Há vídeos com orientações de como descobrir fatos numa cobertura, sobre ética, checagem de fatos, como entrevistar, além de questões técnicas.

Esse canal reforça a tendência de que o jornalismo cada vez mais é aprendido fora dos bancos acadêmicos. A iniciativa é mais do que válida. Não acho que servirá para formar grandes jornalistas, mas que algumas horas passadas em frente ao computador enriqueceriam qualquer profissional ou amador não há como negar.

Nesse mar anacrônico em que se transformou o ensino acadêmico de jornalismo no Brasil, o canal do YouTube supera, em muito, vários currículos disponíveis em faculdades espalhadas em cada esquina.

Saiu da cabeceira

Elaine Brum é uma bela repórter. Dona de um texto interessante, olhar atento e pés que não se contentam em rodar a redação, que necessitam de pisar as ruas, Eliane se diferencia nesse mar de semelhanças em que se transformou o jornalismo brasileiro - suas reportagens em "Época" atestam.

Já tinha lido "O olho da rua" (link para o Google Books, em visualização parcial), coletânea de reportagens que investigavam um país à margem.

Seu "A vida que ninguém vê" é também uma coletânea, desta vez da coluna que escrevia para o "Zero Hora", onde começou. Disposta a tratar de personagens invisíveis, Eliane foi à caça desse universo em Porto Alegre e entorno.

Encontra o homem que trabalha no aeroporto mas nunca andou de avião, outro que é um colecionador das coisas esquecidas da capital gaúcha, o cego que vive de gritar os prêmios de loterias, pessoas encontráveis diariamente, cotidianamente, e que talvez por isso mesmo sejam despercebidas. Ela dá voz a eles.

Texto redondo, faro agudo, olhar preciso, tudo muito certinho. Eis o problema. Tornou-se fórmula e escapismo retratar miseráveis, pobres, esquecidos. Fica relativamente fácil encontrar nesse universo personagens dignos de uma reportagem, de uma coluna. E é nesse ponto que Eliane escorrega, ao tratar tudo com tanta intensidade, como se culpada, e a leitura acaba por se arrastar. Repete-se. Talvez se lidos semanalmente ganhem outra percepção.

Facilita para o cansaço o fato de que o livro resume suas colunas, então, encontra-se na leitura um eixo editorial. Mas será que não existem personagens curiosos, vivos, ricos de história em outros segmentos? Por que sempre nesse mundo miserável?

Com as reportegens, Eliane escapou da amarra dos invisíveis e encontrou outros. Neste "A vida que ninguém vê", a leitura se cansa lá pelo meio. Deixe o livro de molho. Volte a ele depois. Fica mais digerível.

01/07/09

Mergulho na neve

Em meio à discussão sobre os livros de Will Eisner nas escolas públicas, uma HQ recém-lançada faz lembrar obras de Salinger.

Aparte. Instituições de São Paulo, Santa Catarina, do Paraná e Rio Grande Sul querem vetar obras como "Um contrato com Deus" e "O sonhador" por acharem de linguagem "forte" para os jovens, assim como "Aventuras provisórias", de Cristovão Tezza. Ao mesmo tempo, permitem títulos de Jorge Amado. Enfim.

"Retalhos", de Craig Thompson, um calhamaço de 590 páginas, é uma preciosidade. Relato um tanto autobiográfico, o livro se passa no meio oeste americano, onde Craig, cercado pela neve e a opressão da família cristã, tenta superar a barreira da infância e adolescência.

Dado como esquisito pelo seu perfil retilíneo, Craig envereda pelo desenho. Cria mundos imaginativos com seu irmão, no quarto isolado da casa onde dormem. Na escola, é o garoto rejeitado. Até conhecer Raina.

A paixão adolescente transforma o mundo de Craig, o levará a crescer e confrontar a vida. Narrado todo em preto e branco, com imagens que representam a culpa cristã com imensa criatividade em meio ao universo jovem, o livro é o similar a "O apanhador no campo de centeio", de Salinger.

Tão brutal quanto, tão profundo quanto, "Retalhos" passa longe, tanto no texto como na iconografia, de uma graphic novel juvenil. A forma como Thompson investiga as sensações de Craig é precisa, ao mesmo tempo que abre espaço para o leitor delirar. Craig tem que lidar com abuso sexual, a opressão familiar, a culpa cristã, a rejeição escolar, os maus tratos de colegas enquanto busca seu lugar. Thompson entrega uma HQ em que nada é fácil e claro, mas que permite mergulhar nesse mundo e se envolver com a história.

Além disso, a tradução do título do livro para o português é um achado. "Blankets" (cobertor, colcha, coberta) se transformou em "Retalhos". Um presente dado por Raina a Craig explica a tradução, de uma sensibilidade ímpar.

30/06/09

A nossa cara

"Política não é ciência, não é religião. Política é política. Ela é uma atividade humana civilizadora. A alternativa a ele é o conflito entre os homens, entre os países. E os políticos são frutos do tempo e da sociedade em que atuam. Duas forças que também condicionam o eleitor. O Senado é um espelho da sociedade brasileira. Ela acha feio o que vê no espelho."
(Trecho da coluna de Maurício Dias na "Carta Capital")

Uma livraria que vende livros

Reproduzo abaixo entrevista feita por Ana Paula Sousa, feita para o seu blog, o belo Babel, infelizmente encerrado. De qualquer forma, vale fuçar nos arquivos.

***
Na era das compras pela internet, dos downloads e das livrarias transformadas em lugar de venda de CDs e DVDs, um espaço chama a atenção em São Paulo.

Na avenida Paulista, quase esquina com a Brigadeiro Luiz Antonio, sobrevive uma livraria que, na contramão da concorrência, continua a vender apenas livros.

Nascida em 1960, em Santos, e depois transformada também em editora, a Martins Fontes atravessou os anos como uma livraria modesta. O principal negócio da família era a edição.

Em meados dos anos 2000, no entanto, Alexandre Martins Fontes, filho do fundador, Waldir Martins Fontes, decidiu inverter a lógica do negócio e investir nas lojas da avenida Paulista e da rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque.

Na entrevista a seguir, Alexandre fala sobre o negócio dos livros no Brasil.

É possível uma livraria, hoje, viver só de livros? Mesmo livrarias tradicionais de São Paulo, como a Cultura e a Livraria da Vila, aderiram aos DVDs ou CDs.
É possível. Somos a prova viva disso. Em 2005, decidi investir pra valer na livraria. E eu não queria vender CDs ou objetos de papelaria. Queria atrair o público que verdadeiramente consome livros. E, para você ter uma ideia, estamos, em 2009, vendendo oito vezes mais do que no final de 2004. Acho que hoje, esta livraria cumpre o seu papel de fazer o melhor trabalho possível.

O que é uma boa livraria?
É uma somatória de coisas, claro. Mas, quanto maior o acervo, maiores as chances de ser um acervo rico. Temos aqui 100 mil livros. Entre eles, há 90 mil títulos. Se eu colocasse dois exemplares de cada, eu teria apenas 50 mil títulos. Isso, para mim, é uma boa livraria. É claro que, no caso dos lançamentos maiores, eu não tenho um só exemplar. A La Selva, por exemplo, trabalha com cerca de 3 mil títulos. A Fnac, com 30 mil.

Mas a tendência das livrarias é justamente a inversa, não? Ou seja, trabalhar com um número menor de títulos.
Sim. O que é mais trabalhoso? Escolher um número maior de livros, repor o estoque a cada venda ou oferecer o que tende a ser vendido com mais rapidez?

Me parece que vocês são um exemplo da teoria da “Cauda Longa” (do norte-americano Chris Andersen), que defende que a indústria cultural sobreviverá por meio de nichos.
Nosso projeto tem tudo a ver com isso. Metade de nossas vendas é de um exemplar. No mundo do livro, a lógica da cauda longa é ainda mais verdadeira que no mundo da música. A quantidade de livros publicados é enorme. Quanto mais opções dermos ao cliente, melhor.

As mega-stores, ironicamente, acabaram reduzindo as opções?
As mega têm origem numa teoria criada nos anos 1990, nos Estados Unidos, quando se dizer que seria importante que as pessoas, por terem cada vez menos tempo, fossem a um lugar em que encontrassem todas as opções de entretenimento cultural. O problema é que essa lógica se estendeu para espaços não tão grandes assim. E aí, simplesmente, você não tem como expor tudo.

Sabe-se que o Brasil é um país que pouco lê. Ao mesmo tempo, o mercado de livros parece crescer. Como se explica isso?
Uma coisa não exclui a outra. Apesar de pouca gente ler, a população é muito grande e essa pequena fatia que lê justifica a publicação. Além disso, quando um livro estoura, são milhões de exemplares vendidos.

Mas os livros são caros porque pouco se lê, não?
Sim, porque as tiragens são baixas, de 2 mil ou 3 mil exemplares. Ainda assim, é inegável o amadurecimento do mercado de livros no Brasil. Estamos, hoje, entre os principais mercados do mundo para a venda de direitos autorais. Publica-se muito. Aqui na avenida Paulista, há 10 anos, você tinha apenas a Livraria Cultura. Hoje, temos a Cultura, que cresceu, a Martins Fontes, a Fnac, a Saraiva do Shopping Paulista… Significa alguma coisa, não?

***
Aparte. Conheço a Martins Fontes de Santos, que originou as lojas de SP. Livraria confortável, bom acervo, num ponto bem interessante. A de SP é lugar para quem gosta do cheiro de livro, sem distração. A confusão na distribuição lembra um sebo, mas essa cara "humaniza" a livraria. Vale a visita.

29/06/09

Do gol ao culto

Desisti de falar sobre o caso ontem, mas Juca Kfouri tocou no assunto na sua coluna de hoje na "Folha": a confusão entre futebol e religião na seleção.

As fés, os credos e as religiões devem ser respeitadas. Mas causa uma certa irritação ver o Felipe Melo, a cada vez que encontra uma câmara de TV, dizer "glória a jesus" ou algo semelhante. Não precisa ser após um gol, basta ter lá a luzinha vermelha ligada para ele dizer isso.

Como também a cada comemoração de gol existir quase que um culto no gramado, tamanha a quantidade de agradecimentos ao céu. Ou quando os jogadores insistem em usar camisetas alusivas às suas igrejas.

E ontem o campo virou uma campanha publicitária, cada jogador defendendo sua igreja. Do "I belong to Jesus" de Kaká ao "I love Jesus" de Lúcio - Luís Fabiano também usava a sua na hora da oração pós-título.

Os jogadores podem e devem agradecer a quem eles quiserem, podem pertencer a quem eles quiserem. Mas que a coisa está confusa e misturada, não há como negar.

O fim está perto

A internet já detalhou impressões sobre o fechamento de grandes impérios de vendas de CDs - Tower e Virgin, entre elas. Prédios inteiros em liquidação, salas gigantescas com CDs sendo vendidos a troco.

A crise de identidade de indústria musical afetou diretamente as chamadas megastores. O negócio caiu e pouca coisa restou no exterior.

No Brasil, as lojas pequenas e exclusivamente de CDs são raridades. Há cidades onde só é possível comprar CD, ao vivo, nas Lojas Americanas - sabidamente, um lugar que não é dos mais, digamos, ricos em acervo e/ou oferta de lançamentos, restritos, basicamente, a qualquer coisa da Ivete Sangalo, de alguma dupla sertaneja e de trilhas da Globo (novela, claro).

Em São Paulo, parece que ainda há uma resistência. As Grandes Galerias, no centro, insistem em dar uma sobrevida, mas desconfio que seja um fenônemo isolado. As lojas pequenas sumiram, não havia como resistir. Sebos praticamente não aceitam mais CDs para compra, a não ser que você inclua no pacote de livros ou queira trocar.

Museu do Disco, Billbox (resta uma, em um shopping), Hi-Fi, lojas tradicionais sumiram com o passar dos anos. Uma mega, Planet Music, também sumiu já faz tempo. Uma outra, Mirage, que pretendia ser uma espécie de Tower, sumiu.

Então, fora as lojas das GG, o que há, para valer, são grandes redes - Saraiva, Cultura, Fnac. Pois bem, o desmanche começou.

A Fnac inicou uma liquidação de CDs, ainda de forma discreta, mas que é mais um passo ao fim. A loja da avenida Paulista, por exemplo, até dois anos atrás, reservava um espaço enorme para os CDs. No ano passado, mudou a distribuição e reduziu a área. Neste ano, diminuiu mais ainda, deixando o setor desfigurado e quase abandonado. Lançamentos demoram a chegar, o acervo mal é reposto, não há mais achados - agora, restam os importados a preços proibitivos, coisa de R$ 60, R$ 70 para mais.

Costumava perder horas em meio às prateleiras da Fnac, coisa de um andar inteiro, no caso da loja de Pinheiros. Agora, com CDs vendidos a cinco por R$ 50, o fim ganhou mais um passo. Ainda que o estoque colocado na liquidação não seja lá grandes coisas, o passo indica que as cenas presenciadas nos Estados Unidos, principalmente, em breve se repetirão por aqui.

Ah sim, eu ainda compro CDs...

26/06/09

Na terra de Alice

Tim Burton já está na fase de pós-produção da sua versão cinematográfica para "Alice no país das maravilhas" - chega às telas em 2010.

Neste link, seguem mais fotos da produção, um delírio visual que no cinema deverá ser a melhor tradução do livro de Lewis Carroll.

Hang the DJ


"Kids (Jeu Du Foulard)", da francesa Coralie Clément. O vídeo é do show de Buenos Aires e a versão difere da original de estúdio. Mas é o único vídeo que encontrei na rede. E ela toca hoje e amanhã em SP. E a música é deliciosa, vale procurar pela versão de estúdio, que saiu no CD "Bye Bye Beaute".

25/06/09

Michael Jackson, 1958-2009

Que Michael Jackson transformou a música pop nos anos 80, isso já se tornou clichê. Coisas como "Thriller" e "Billie Jean" mudaram a forma de a indústria tratar a música - a MTV deveria pagar um cachê anual para MJ, só por ele ter criado clipes revolucionários e que permitiram a criação do canal musical.

Não sou exatamente um fã de MJ. Reconheço sua importância e força musical. Seus álbuns da carreira solo não me atraem, com exceção de uma ou outra canção - "Black or White", por exemplo.

Fez dois grandes discos, "Off the Wall" e "Thriller", e um mediano, "Bad". Depois, entrou em decadência e nunca mais recuperou a força criativa desses trabalhos, a não ser em casos isolados, canções espalhadas por seus outros dois de inéditas, "Dangerous" e "Invencible".

Já seu trabalho com o Jackson 5 e do início da carreiro solo é dos melhores, soul e pop de qualidade. O CD triplo "Michael Jackson & Jackson 5 - The Motown Years" é a melhor coletânea desse período - são 50 canções para comemorar o cinquentenário da gravadora ícone da black music.

Tinha claramente uma série de distúrbios emocionais que o tiraram do rumo. Mas era um gênio da música. A história precisará ser recontada a partir de sua morte.

A história segundo as livrarias

Sou rato de livraria. Passo horas perdido em qualquer uma delas, desde que tenha material para tal. Hoje, poucas se diferenciam, como a Livraria Cultura, cujo acervo é constantemente renovado, sempre também com boas opções de livros em inglês e espanhol.

Pena que parte das livrarias se transformou em mais do mesmo. Prateleiras de bestsellers, lançamentos e autoajuda dominam as redes - tenho preguiça em entrar na Nobel, por exemplo, ela que é a maior rede em número de unidades do Brasil.

Portanto, "Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras", de Ubiratan Machado, torna-se referência para quem gosta do ambiente e do cheiro do livro. Ele traça pequenos cem perfis de livrarias brasileiras, algumas já desativadas, boa parte em funcionamento. Há livrarias de 1750 (Loja de Livros de Manuel Ribeiro dos Santos, em Ouro Preto), de 1797 (Silva Serva, em Salvador), por exemplo.

Cada capítulo abre com a reprodução da placa ou fachada da livraria, um trabalho de artesão para recolher e compilar o material.

Da mesma forma que "Shakespeare & Co.", a biografia da livraria parisiense, este guia é uma celebração. Como restam poucas livrarias independentes, vamos chamá-las assim, descobri-las neste livro é um mergulho histórico, que possibilita entender um pouco mais o país e suas letras.

24/06/09

A cidade

São Paulo talvez nunca encontre descrições tão precisas quanto as de Vicenza Scarpellini, artista plástica e designer italiano morto em 2006, aos 41 anos.

Por seis anos, ele dividiu a coluna "Urbanidade", na "Folha", com Gilberto Dimenstein. Scarpellini colaborava com uma ilustração e um pequeno texto, de modo a dar cara à cidade, uma crônica visual apoiada pelas suas observações.

O recém-lançado livro "San Paolo" compila esse trabalho, num recorte de sua produção que explica muito da SP da virada do século. Seus desenhos captam cenas quase que invisíveis ao passante, os comentários aprofundam a relação com a cidade, com um olhar crítico e, ao mesmo tempo, acolhedor.

Assim Dimenstein encerra o prefácio do livro: "Quando forem rever a história dessa cidade, especialmente neste momento de redescoberta, os desenhos de Vicenzo serão um de seus melhores registros".

Esta SP de Scarpellini eu reconheço.

Alguns instantâneos
• Vida após a morte
"Pouco restou da antiga elegância de Congonhas, que está em atividade há 65 anos e já foi o terceiro aeroporto do mundo. Em seu interior, devorado pelas lojas, o espaço arquitetônico morreu. O que sobrou é um espaço tristemente incoerente. Vida real, dirá alguém. E parece que as incoerências só podem ser corrigidas nas artes ou nas ciências, mas não na vida real."
• Galeria do Rock, quarto andar
"As galerias do centro não são, como certos shoppings, monumentos separados do ambiente urbano. Abertas nas extremidades, deixam passar de uma rua para outra. São proporcionais à estatura e aos movimentos humanos. Seus espaços quase convidam a medi-la em passos, braços, pés (desvairadas grandezas de outrora, vencidas pela firma abstração do metro)."

• Largo do Arouche
"Esta praça, como a Dom José Gaspar, foi reformada sem assentos públicos. As duas se parecem com uma rotatória, meros lugares de passagem. Medo dos moradores de rua? De um lado, entre todos os cidadãos, o poder público distingue os que não deseja. De outro, estende a todos a 'culpa' desses poucos. É como se o caçador, para matar a raposa, atirasse também em seus cachorros."

• Paraíso perdido
"Sobretudo nas noites que antecedem feriados, urinar na rua tornou-se comum e, sem distinção de classe, até socialmente tolerado. Era de se esperar que os instintos dos cavalheiros estivessem sujeitos a um maior grau de restrição, mas o ato pode ser visto como uma pichação orgânica: marcação do território em que o autor, ao aliviar a bexiga, se expressa como pode."

• Rua Nova Barão vista da rua 7 de Abril
"Que espaço é o centro? Não um só, mas vários. Tantos quanto as possíveis definições e os pontos de vista de todos os que andam pelas ruas. Porém certos espaços, mais do que outros, são 'lugares'. Permeáveis. Precários e caóticos, mas reconhecíveis. Pontos de encontro e convivência. E quem os atravessa, durante o dia, toma um banho de pessoas."

23/06/09

Tratado da invisibilidade

Seu nome batiza a maior premiação das histórias em quadrinhos. Não é por menos. Will Eisner (1917-2005) revolucionou a arte com a criação das graphic novels (romances gráficos) em 1978, com “Um Contrato com Deus”. Sua obra recebe boa atenção no Brasil – Devir e Companhia das Letras possuem juntas 11 títulos em catálogo. O selo Quadrinhos na Cia, em sua primeira leva de lançamentos, coloca nas prateleiras a obra-prima de Eisner.

O combo “Nova York – A Vida na Grande Cidade”, um catatau de mais de 400 páginas, reúne pela primeira vez quatro livros que têm a cidade norte-americana como cenário de fundo. Se na trilogia iniciada em “Um Contrato com Deus” (completada por “A Força da Vida” e “Avenida Dropsie – A Vizinhança”) a avenida Dropsie, no Bronx, era sua ambientação tema, neste volume os tipos e situações vividas na cidade dão o tom.

“Nova York – A Grande Cidade” (1981) e “O Edifício” (1987) já tinham sido traduzidos em 1989, em volumes separados – pela Martins Fontes e Abril, respectivamente. Ganharam nesta nova edição a companhia de “Cadernos de Tipos Urbanos” (1989) e “Pessoas Invisíveis” (1992).

O lançamento chega com atrativos. A introdução é de Neil Gaiman (“Sandman”), que assim descreve o autor: “Hoje faz exatamente um ano que Will morreu, e eu ainda sinto a sua falta. Ele era modesto e sábio e, acima de tudo, interessado” – o texto foi escrito em 2006.

Como extras de um filme em DVD, o volume traz novas ilustrações para “Nova York” e “O Edifício” e cenas excluídas para “Pessoas Invisíveis”. Recupera ainda a vinheta “São Paulo Também”, presente na edição da Devir. Em uma página, Eisner retrata uma cena comum em SP, um assalto num semáforo.

Eisner subverte o romance gráfico neste conjunto. “O Edifício”, uma crônica pungente sobre uma prédio e as pessoas que conviveram com a construção ao longo dos anos, segue a fórmula de narrativa. Já “Nova York” é composto por uma série de vinhetas, composições de uma a duas páginas, que encerram uma ideia, mas que juntas dão corpo à história. A cidade é retratada por temas como metrô, um bueiro, lixo, música de rua e janelas.

As duas novidades do livro vão a fundo na investigação do ser. Sem sentimentalismo, Eisner observa – não raro ele se torna peça da banda desenhada, como um Hitchcock em seus filmes – e tira do seu olhar descrições precisas, distante da pieguice que tal poderia gerar, mas com uma carga emotiva na medida certa.

“Cadernos” também é composto por vinhetas, mas algumas histórias se desenvolvem por mais páginas. Seus tipos e suas situações formam um mosaico dos mais ricos, a desvendar uma Nova York mais terrena, como nas três histórias de “Pessoas Invisíveis”, em que chegou ao ápice nessa investigação do ser comum.

“Santuário”, sobre Pincus, um funcionário de uma alfaiataria, solitário, que é dado como morto num anúncio de jornal, é um verdadeiro tratado sobre a invisibilidade. “O Poder” e “Combate Mortal” completam o título, sempre a explorar as fraquezas e sonhos de pessoas comuns.

* Texto escrito para o jornal "O Tempo", a ser publicado

22/06/09

Olhares

Num aeroporto do interior de Minas Gerais.

O agasalho perdido

O inverno faz proliferar faixas, cartazes e afins com campanhas destinadas a recolher agasalhos para a população carente. Além de governos e das tradicionais casas de assistência, toda grande empresa que se pretenda consciente lança a sua campanha. Hoje, dificilmente um supermercado não possui uma caixa de papelão gigantesca na entrada com os dizeres de apoio e participação.

Dois pontos em relação a essas campanhas filantrópicas.

Um, por que não houve um clamor popular para o Nordeste, como houve para Santa Catarina?

Dois, como participar de campanhas como essas depois do que aconteceu com doações feitas para a população de Santa Catarina? Doar um agasalho para ver em garagens de funcionários públicos sendo vendido?

As tragédias são imprevisíveis, embora algumas pudessem ser minimizadas caso o poder público fosse correto - seja em Santa Catarina ou Nova Orleans. Se as vítimas do Katrina também sofreram com pessoas brutas, que vendiam ou desviavam as ajudas humanitárias, tal qual no Brasil, pelo menos lá elas podem ter a certeza de que os culpados foram punidos - não os culpados pela tragédia, esses nunca são.

Aqui, catarinenses, piauienses ou moradores de rua nunca terão esse tipo de resposta. A certeza é que uma nova tragédia irá acontecer. Resta saber quando e onde.

21/06/09

Saíram da cabeceira

Da safra Jornalismo Literário, dois livros, "O Livro dos Insultos", de H.L. Mencken, e "Vida de Escritor", de Gay Talese.

O de Talese li quando sua edição americana, na época do lançamento original, em 2006. A Companhia das Letras traduziu para o português e aproveitou a vinda do jornalista para a Festa Literária de Paraty para promovê-lo.

Não é, de longe, o melhor dos livros de Talese. Permanecem intactos seu talento de escritor e o faro de repórter, mas não é tão envolvente quanto obras como "A Mulher do Próximo", longa reportagem sobre o comportamento sexual dos americanos nos anos 70, ou "O Reino e o Poder", espécie de biografia do "The New York Times", obras-primas da narração jornalística.

"Vida de Escritor" promete ser uma autobiografia, mas funciona mais como roteiro de bastidores. Ao lançar mão de seus arquivos, para contar como alguns de seus trabalhos foram produzidos e outros que nem lançados chegaram a ser, Talese permite o olhar externo sobre seu método de trabalho, as relações entre repórter, fonte e chefe e como a relação em uma redação é delicada, principalmente entre um profissional talentoso como ele e um redator, por exemplo.

As histórias das reportagens que não foram publicadas são o forte do livro, que se transforma em outros dois para contar essas pequenas sagas. Os casos da jogadora chinesa que perdeu um pênalti contra os EUA no Mundial feminino de futebol e do casal Bobbit (ela cortou o pênis do marido, uma notícia que varreu o mundo) rendem um bom manual de reportagem.

Assim como a relação com Tina Brown, editora da "The New Yorker" em 1993 e que chamou Talese para colaborar com a revista, uma das pioneiras do Novo Jornalismo, ao lado da "Esquire", tendência que usava recursos literários e técnicas jornalísticas para contar uma história.

Para quem já é iniciado na obra de Talese, o livro é uma delícia pois funciona como complemento a todos os trabalhos anteriores. Para quem vai começar a leitura de Talese, talvez seja melhor abrir primeiro a coletânea de reportagens "Fama e Anonimato". "Vida de Escritor", a seguir, seria um par mais saboroso.

Já "O Livro dos Insultos", reedição da tradução de 1988, pela mesma Companhia das Letras, agora sob o novo acordo ortográfico e o projeto gráfico da coleção, é uma obra-prima da observação aguda e bem humorada. Mencken investiga, em suas colunas em jornais e revistas de Baltimore, como se comportam homens e mulheres, opina sobre música, religião literatura e política, numa época em que os EUA ainda esperavam o trono de império vagar.

A série "Tipos de Homens", em que descreve, em textos curtos, o gênero, é das melhores coisas já criadas - desfilam o empresário, o solteiro, o chefe de família, o eterno macho, em observações ácidas, bem humoradas e precisas.

Sua genialidade está na atualidade dos seus textos, escritos nas três primeiras décadas do século passado.

Trechos
"Acima de todos os quadrúpedes, o homem é o mais frívolo e idiota. Um belo papagaio não passa de um mero papagaio em comparação a ele. O homem não consegue se imaginar fora do centro das situações. Nunca abre a boca a não ser para falar de sim mesmo."
("O Eterno Macho")

"(O empresário) É o único homem, além do verdugo e do gari, que vive se desculpando por sua ocupação, para fazer parecer, quando atinge seu objetivo de seu trabalho - i.e., ter ganhado uma montanha de dinheiro -, que o dinheiro não era o objetivo do seu trabalho."
("O Empresário")

"Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende por vezes, o que significa dois, e o que quer dizer são e por que isso dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes."
("O Metafísico")

"Se você quiser descobrir como um filósofo se sente quando se empenha na prática de sua profissão, dê um pulo ao zoológico mais próximo e observe um chimpanzé na sua chatíssima e infindável tarefa de catar pulgas. Ambos - o filósofo e o chimpanzé - sofrem como o diabo, mas nenhum dos dois consegue ganhar."
("O Filósofo")

19/06/09

Hang the DJ


"Envelheço na cidade", Ira! com Paralamas, um dos raros acústicos dignos.

18/06/09

O Brasil que persiste

"Eu saí de lá deprimido (...) Foi duro essa experiência de conviver com as pessoas, ficar amigo delas e não poder interferir radicalmente, porque eu tinha que fazer o filme (...) Ao tomar contato com essa realidade, não só eu mas toda a equipe de filmagem ficou deprimida."

Em entrevista à revista "Brasileiros", o diretor José Padilha assim respondeu à pergunta sobre como foi conviver 45 dias em Choró (CE) com as famílias retratadas no documentário "Garapa".

Se deprimido, revoltado, triste ou indignado, impossível sair do cinema sem reação. Pode-se questionar as soluções encontradas por Padilha para o filme - fotografia em preto e branco, distância do objeto documentado (apenas em alguns trechos há perguntas) -, mas é difícil não se envolver com o que se passa em quase duas horas de exibição.

Padilha escolheu três famílias cearenses - uma próxima ao centro urbano, outra de uma cidade pequena e uma da zona rural - para retratar o cotidiano da fome. Filmado em 2005, o contexto do assistencialismo do governo Lula não estava tão impregnado e funcional como hoje, mas algumas coisas dificilmente devem ter mudado.

Por exemplo, uma família fica sem a cota de leite porque o funcionário do governo (estadual ou federal, não fica claro) não entregou o item por causa do Carnaval - pela TV, descobre-se que era uma quarta-feira de Cinzas, a narração da apuração das escolas de samba denuncia.

As famílias são gigantescas e pouca orientação existe sobre controle de natalidade. Uma delas possuia 11 filhos na época da filmagem - hoje, são 13 e prestes a serem 14. Essa é a política de um país católico. Uma mulher não hesita em fazer sexo com o companheiro, mesmo sabendo que ele pode ter alguma doença, e diz que não sabe se o homem usa ou não camisinha. O discurso do Fome Zero nunca vai funcionar com as famílias se multiplicando sem orientação.
A bebida é uma constante. Um marido pega as coisas de casa para vender e passa o dia bebendo. Outro não vai trabalhar e fica o dia dormindo, por conta de uma ressaca. Ninguém escapa do alcoolismo, pais e mães reclamam de seus pais e mães constantemente bêbados e se transformam em pais e mães mais bêbados.

Trabalho não há. As pessoas não sabem se comunicar, falam mal e sem vocabulário, muitas das frases não têm sentido - um rapaz teve que ouvir umas quatro vezes a explicação de que o remédio que o cineasta deu para passar a dor de dente de uma das crianças não curou o mal, apenas atenuou a dor provisoriamente -, as crianças não possuem coordenação motora e se estão claramente desnutridas, as pessoas não sabem quando e onde nasceram, balbuciam os nomes completos e algumas só possuem o título de eleitor como documento - claro.

O filme caminha por closes, moscas e muriçocas convivendo com pratos de feijão duro, farinha, açúcar e água, a garapa do título, um cotidiano miserável e que, ajudado pelo p&b, parece um Brasil que imaginava-se não existir mais. Apresentado de forma crua, o impacto é mais forte. Em certo momento, talvez surja a pergunta "para onde ele vai caminhar agora?", já extenuado pela rotina das famílias.

A resposta aparece dessa convivência com a fome, de esperar o dia passar para ver o que vai acontecer, para saber o que comer e se há comida. Essa espera é longa, e o filme reflete essa passagem.

17/06/09

Um brinde ao bom senso e à liberdade

Que o diploma de jornalismo era uma decoração apenas, para colocar na parede ou esquecer no fundo de gaveta, estava claro e vivo havia anos. Sobrevivia apenas por conta de um corporativismo besta, coisa de sindicalista de boteco e de comunista dos anos 70 transformado em estudante radical que não lê.

Enfim, o STF fez algo digno. Derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a função. Algo que já acontecia na prática nos grandes centros, em veículos mais antenados - mas resistia em alguns feudos sindicais, inclusive de grandes capitais.
Vamos em frente, vamos lá...

* Me desculpem a pieguice da foto de fogos de artíficio, mas a notícia é alvissareira por demais para evitar uma reação besta de felicidade. Pois é assim que me sinto hoje, livre da exigência que nunca me impediu de exercer a profissão, mas que me fazia questionar continuamente a profissão e me perturbava levemente nos momentos de quietude. E a notícia só poderia ter sido me passada por alguém como você...

Num dia de aniversário

“Ela ainda estava dormindo, mas podia sentir-se emergindo do sono, tal e qual um balão: era como se fosse um peixinho dourado em uma redoma de sono, subindo e subindo pelas águas quentes do sono para a superfície. E então acordaria.”

Assim começa "A Árvore dos Desejos", livro infanto-juvenil escrito por William Faulkner (1897-1962), o único em sua bibliografia, que está saindo em nova tradução para o português pela CosacNaify, depois de 33 anos – em 1976, o Círculo do Livro publicou a tradução de Hamilton Trevisan, e desde então esse filho único está ausente das livrarias brasileiras.

“A Árvore dos Desejos” nasceu em 1927, após o lançamento do primeiro romance de Faulkner (“Soldier’s Play, 1926) e dois anos antes de sua obra máxima, “O Som e a Fúria”. A primeira edição só foi publicada em 1967 – antes circulava apenas em versões pessoais, dadas de presentes a filhos de amigos. O livro tem ilustrações de Eloar Guazzelli e tradução de Leonardo Fróes.

O livro foi escrito para o aniversário da filha de uma ex-namorada de adolescência, Estelle. O Prêmio Nobel de Literatura em 1949 mantinha uma relação à distância com Estelle, na época vivendo um casamento à beira do fracasso. O escritor, apegado à filha de sua paixão, Cho-Cho (borboleta em chinês), criou “A Árvore dos Desejos”, segundo Joseph Blotner, seu biógrafo – o livro é dedicado a Victoria, “no dia dos seus oito anos”, o nome verdadeira da criança. Anos depois, Faulkner se casou com Estelle.

A história começa quando, no seu aniversário, Dulcie recebe a visita de Maurice, no meio da noite, para chamá-la a uma aventura, a busca da árvore que realiza desejos. Juntam-se a eles o irmão menor de Dulcie, Dicky, sua babá, Alice, o amigo George e o velhinho Egbert. Faulkner narra essa aventura de forma bem-humorada, inventiva – cria bichos como flatiplus e o lerofante, a árvore de folhas brancas, a açucarina – e realiza os sonhos de crianças – basta pedir e pronto.

Nascido no sul dos Estados Unidos, no Mississippi, Faulkner transformou o cenário dessa região em seus objetos de trabalho, dos conflitos sociais e dos efeitos da Guerra da Secessão à questão religiosa, todos temas de forte presença em seus romances adultos e que surgem delicadamente nesta aventura. Em “A Árvore dos Desejos”, os ex-maridos de Alice recebem os nomes de Êxodus e Gênesis. A mesma Alice, criada da família de Dulcie, comenta sobre um castelo em que vê soldados: “Nunca vi nenhum soldado ganhar na guerra qualquer coisa que seja. E essas guerras dos brancos são sempre meio esquisitas”. E o velhinho Egbert assim se refere aos conflitos: “Guerra é tudo igual, eu acho”.
Se nos romances adultos Faulkner iria estabelecer um universo, em “A Árvore dos Desejos” já prenunciava esse mundo, numa história em que “num dia de aniversário tudo pode acontecer”. Sem facilitar, sem impedir a imaginação à solta.

***

A CosacNaify aproveita o lançamento de “A Árvore dos Desejos” para reeditar outros três livros de William Faulkner do seu catálogo, todos sob o novo acordo ortográfico. Ganham novas traduções “O Som e a Fúria”, “Palmeiras Selvagens” e “Luz em Agosto”, três das quatro principais obras do escritor norte-americano.

O quarto volume, “Absalão, Absalão!”, deve chegar às livrarias em agosto, com tradução de Celso Mauro Paciornik, que já havia vertido para o português “Luz em Agosto”. O livro está ausente das prateleiras desde 1981, quando foi lançado pela Nova Fronteira.

Já a L&PM coloca à venda em edição de bolso “Enquanto Agonizo”, em tradução de Wladir Dupont, que havia trabalhado na versão lançada pela Mandarim, em 2001.

* Texto escrito para o jornal "O Tempo", publicado em 20/6

16/06/09

Lavoura Arcaica

"Creio que nenhuma outra qualidade pode contribuir tanto para fazer um bom escritor quanto o poder de rejeitar os próprios pensamentos. (...) Por aquilo que publiquei, posso esperar apenas ser perdoado; mas, por aquilo que atirei às chamas, mereço ser aplaudido."
(Alexander Pope)

15/06/09

Leituras do cerrado

Feriado que teve sabores diferentes, visitas a recantos particulares e regado a dois livros, devorados nos momentos em que a solitude imperava.

O primeiro deles, "O homem dos círculos azuis", policial de Fred Vargas, já aguardava havia alguns meses na prateleira. A autora é arqueóloga medievalista, francesa, o que me chamou a atenção quando li seu primeiro romance traduzido no Brasil, em 2004 - "Fuja logo e demore para voltar". Raramente me empolgo com policiais, mas este me fez voltar à autora, no mesmo ano, quando saiu "O homem do avesso". Dois livros bem escritos, de trama envolvente, sem soluções mirabolantes nem psicologismo demais.

Só agora retornei a Fred Vargas. Este "O homem dos círculos azuis" apresenta o detetive Jean-Baptiste Adamsberg, numa trama que percorre Paris e seus arrondissements em busca de um misterioso homem que desenha com giz círculos azuis nas ruas e coloca objetos no centro, para evoluir a uma série de assassinatos.

Fred Vargas cria uma ambientação que foge de clichês. Não é a Paris turística, mas também não é uma cidade distante, sem referências. mas sim uma cidade possível, real, em que a simpatia surge de imediato.

Talvez seja o seu maior mérito, essa ambientação inteligente, de apresentar a cidade com delicadeza, como uma fotografia, sem exageros, apenas a descrever.

Sua leitura teve como ajuda a Gol, que transformou um voo de 55 minutos num de 4h, no dia em que SP registrou 300 km de congestionamento. Enquanto a cidade parava nas ruas, uma centena de passageiros pararam sentados dentro de um avião, sem poder fazer nada, a não ser ler.

Emendei com "A morte do gourmet", um livro comprado no impulso da contracapa. Um crítico gastronômico está à beira da morte e revê sua obra e vida nos momentos finais, à procura de um sabor único, que não consegue lembrar.

Muriel Barbery, francesa filósofa e radicada na Normandia, criou um protagonista cuja voz é entrecortada com visões de pessoas que conviveram com Pierre Arthens. Essa multiplicidade remonta a personalidade forte do gourmet, vista por filhos, amigos, parentes, um gato, amante.

Seu personagem não é linear, a leitura dessas impressões permite enxergar um ser polêmico, rigoroso com suas opiniões - odeia a família e ponto - e extremamente dedicado à sua profissão - para ele, seu legado é sua obra, mais do que os filhos.

Os curtos capítulos dão vazão à procura de Arthens. Ele vai lembrar de receitas da avó, de camarões, tomates, sorvetes, peixes crus, uísque, em que a descrição do item se torna uma cena memorialística, com recordações de viagens com seus pais, de encontros com familiares quando criança e com amigos já durante sua carreira jornalística.

Nessa fase final, Arthens se restringe à busca do sabor único. Pouco sabemos dele durante suas memórias - o personagem surge na voz dos outros. Suas descrições são saborosas, o que justifica o título de maior crítico gastronômico do mundo.

Muriel é autora do elogiado "A elegância do ouriço", obra que entrará na lista de leitura próxima, após esse mergulho num livro de vozes múltiplas e que, apesar do tema que poderia ser um pastiche nas mãos de um autor menos talentoso, desperta paladares.

Como assim foram os cinco dias passados.

12/06/09

Hang the DJ - Dia dos Namorados


"Raindrops keep falling on my head", BJ Thomas, cena do filme "Butch Cassidy".

10/06/09

Trilhas 6 e 7 - Dois clichês

O que seria do clichê se não fosse o amor? Então, para encerrar a série de trilhas para o Dia dos Namorados, um clichê é essencial.

Cito dois de uma vez, Billie Holiday e Chet Baker, numa busca que tenta pescar da discografia dos dois, tão maltratada com coletâneas que pouco dizem e se repetem, preciosidades e originais.

Então, de Billie Holiday, vai o álbum "Solitude", clássico, preciso, com temas que levam a uma viagem única, como "You go to my head", "These foolish things (remind me of you)", e "Autumn in New York".

É meu álbum favorito da Lady Day, muito pela faixa título, um lamento de derrubar corações insensíveis, com versos como "In my solitude, you taunt me, with memories, that never die" e o trompete de Charlie Shavers pontuando a canção.

De Chet Baker, "Young Chet" reúne gravações feitas em 1954 e 1956, quando a heroína ainda não o havia consumido.

Temas memoráveis como "Time after time", "My Funny Valentine", "Down" e sua versão instrumental para "Autumn in New York" fazem desse disco um complemento fundamental para Billie Holiday.

Talvez o Dia dos Namorados tenha sido criado para que se pudesse ouvir Billie Holiday e Chet Baker. É a trilha perfeita.

09/06/09

Observações - Um presente

Já falei da sensação de entrar numa loja predominantemente feminina, dominada por mulheres, aqui neste post. Diferente da sensação de entrar numa loja e ser atendido por mulheres, na compra de um presente feminino.

Ao saber que você procura por um presente, olhares e sorrisos se transformam. São mais atenciosas, algumas até imaginam tentar empurrar mais alguma coisa que você não tinha intenção de comprar, com a certeza de que homem não sabe comprar presente - duas ou três negativas destroem esse mito e aumentam a segurança da vendedora, por incrível que seja.

Então, elas começam a desconstruir a loja para mostrar tudo, absolutamente tudo. Querem saber de detalhes, como ela é, altura, características físicas, fazem um interrogatório com o intuito de buscar o melhor presente, no tamanho certo. Fazem isso sem constrangimento e numa calma que não impõe constrangimento.

Chegam a vestir a escolha para mostrar que o tamanho está certo. Se não possuem o mesmo desenho físico da presenteada, procuram uma outra vendedora que possa parecer e a chamam para experimentar. A moça vem, larga o que está fazendo e coloca a peça. Então, as duas engatam uma conversa sobre o item e quase esquecem do cliente, que sorri para a desculpa da vendedora.

Fica a impressão de que elas se realizam na compra do presente, de que elas ganham um pouco daquele presente, na escolha feita, no pacote arranjado delicadamente, nas orientações sobre troca ("mas tenho certeza de que vai servir"), nas formas de pagamento, tudo feito de um jeito simpático, sem forçar a barra. Algumas contam que ganharam de presente de seus namorados ou maridos, outras contam que querem comprar tal peça, numa sinceridade que não deixa transparecer uma ilusão ao cliente, do tipo, "bem, se ela ganhou ou quer comprar, deve ser uma boa peça", um recurso de venda.

Não, tal sinceridade parece sincera de verdade.

E as compras se revelam um lugar de absoluta sinceridade para as mulheres, um lugar onde elas se desligam e se entregam à arte da compra, uma arte peculiar e toda própria - homens e mulheres gostam de comprar, cada um com seu jeito, mas o jeito feminino é muito mais divertido, pelo menos para quem observa.

Elas se impõem à loja de um jeito que somente um homem arrogante conseguiria. Desarrumam prateleiras e araras com harmonia, sem se preocupar em colocar em ordem. Experimentam roupas onde estiverem, basta um espelho. Algumas colocam por cima, com o cabide mesmo, para somente testar em casa.

Imagino que a taxa de troca por conta dessa modalidade de compra seja alta e crio a ideia de que comprar é tão importante quanto trocar para elas - particularmente, tenho preguiça de troca. Elas conseguem até ultrapassar a má vontade típica de vendedores que pegam uma troca para fazer, principalmente se forem mulheres, pois se enxergam na mesma posição.

No final, presente empacotado e pago, a moça acompanha o cliente até a porta, quando entrega a sacola. E não, ela não solta "volte aqui outro dia para escolher alguma peça para você". O presente a deixou satisfeita.

Trilha 5 - Uma canção

É uma escolha pessoal, mas não consigo enxergar um Dia dos Namorados sem "God only knows" - as outras escolhas também são pessoais, mas esta é um tanto mais.

Composta por Brian Wilson para o álbum "Pet Sounds", do Beach Boys, a canção é a preferida de Paul McCartney, um dos inspiradores desse trabalho por conta de seu "Sgt. Peppers" - ele assim reagiu ao disco: "Eu pensei: meu deus, este é o melhor álbum da história. O que nós vamos fazer agora?”.

Em entrevista, assim Brian Wilson se refere à canção e ao disco: “Eu preenchi meus sonhos com esse disco. Antes de gravarmos ‘God Only knows´, eu e Carl fomos para uma missa e pedimos ao Senhor que nos guiasse e pusesse todo amor nessa música. Era a primeira vez que alguém usava a palavra ‘god’ no título de uma música. Durante a gravação, eu sonhei que eu tinha uma auréola. Só poderiam ser os anjos tomando conta de ‘Pet Sounds’”.

George Martin, produtor dos Beatles, define o que significa "God only knows" e "Pet Sounds": "Se ‘Pet Sounds’ foi a pré-condição para a excelência de ‘Sgt. Peppers’, só Deus sabe o que seria da música sem ele”.

É uma das melodias mais belas já compostas pelo homem. De quebra, "Pet Sounds" é daqueles álbuns infinitos, que revelam segredos a cada audição. Se tocado no café da manhã, o dia está ganho, afinal, canções como "Wouldn't be nice", "I know there's an answer", "I just wasn't made for these times", "Caroline no" (linda) e a sinfônica faixa título traduzem mundos que se misturam ao clima do dia.

Mas nada supera a beleza de "God only knows", romântica, esperançosa, bela em suas vocalizações e harmonias, uma obra-prima de um gênio da música.

08/06/09

Trilha 4 - Um pouco de alma

Poderia ser Marvin Gaye e seu "What's going on" ou o lascivo "Let's get it on". Ou "Let's stay together", de Al Green. Talvez o classudo "Lady Soul", de Aretha Franklin. Quem sabe a obra-prima "The Dock of the Bay", de Otis Redding, para sempre ouvir num final de tarde em que o tempo nada mais é do que olhar pela janela.

Mas "Talking Book" provoca uma série de sensações em suas dez faixas que nenhum dos citados acima gera, mais lineares em suas emoções. O álbum de Stevie Wonder vai do romantismo de "You and I" à sexy "Superstition", é político em "Big Brother", num r&b delicioso, e mergulha nas raízes da black em "Maybe Your Baby".

Além disso, tem duas obras-primas, "You're the sunshine of my love", sem vergonha de ser romântica, como se fosse uma carta de amor ridícula, e "I believe (when I fall in love it will be forever)", com seu mantra final que repete o título da música, com vocalizações que inebriam.

07/06/09

Trilha 3 - O bardo

Não dá para passar sem Van Morrison. Poderia ser um álbum, uma coletânea, mas ficar sem ouvir o bardo irlandês é o equivalente a Dia dos Namorados sem beijo.

Então, qualquer coisa com "Tupelo Honey", uma das mais belas composições românticas já escritas, vale.

O álbum homônimo é uma obra-prima. Seria minha recomendação, mas a coletânea "Still on top" dá conta do recado.

06/06/09

Trilha 2 - De olhos bem abertos

Este CD de Lloyd Cole, homônimo, pode ser peça chave para a trilha sonora do Dia dos Namorados. Delicado, melódico, de canções que criam ambientes próprios, embaladas pela voz suave do compositor.

Já falei dele num Hang the DJ, com uma música para ouvir de olhos abertos.

E por que não uma trilha para ouvir inteira de olhos abertos... A sequência inicial, "Don't look back", "What do you know about love", "No blue skies" e "Loveless", arrebata.

Este "Lloyd Cole" é talvez seu meu melhor trabalho, incluindo os Commotions e a série Folksinger. E isso não é pouco para quem criou "Are you ready to be heartbroken?" (do primeiro disco, "Rattlesnake") - esqueça a letra e ouça apenas a música...

05/06/09

Trilha 1 - Mr. Orbison

Chris Isaak nunca foi tão Roy Orbison quanto em seu CD mais recente, "Mr. Lucky", que acabou de sair no Brasil, quatro meses depois do lançamento no exterio - sim, sou um bicho antiquado que ainda compra CD.

A melancolia, o romantismo exacerbado, um certo tom de sofrimento e piedade, colados a baladas e rocks básicos formatam a receita que Isaak imprimiu em seu disco.

Lembra o Orbison de "I drove all night", "Crying" e "She's a mystery to me" em canções como "You don't cry like I do", "Mr. Lonely Man", "Take my heart".

Vale a busca por aí ou, se você for tão arcaico como eu, a ida a uma loja, que será recompensada.

A trilha sonora para o Dia dos Namorados começa por aqui.

Hang the DJ




Para o frio que deve resistir no final de semana, duas versões de "One bourbon, one scotch, one beer". A primeira, John Lee Hooker, o dono da música, a segunda, George Thorogood, numa versão mais tensa.

04/06/09

Dois pesos...

Quando a MTV promovia seus acústicos, luaus, baladas e shows, a perpetuar a falta de criatividade e prender artistas a um repertório batido e repetido, as críticas choviam por tudo quanto é lado - críticas relevantes e pertinentes, é só olhar o que aconteceu com o cenário musical. A fórmula esgotou-se de tão esturricada que estava.

Agora, o Multishow faz o mesmo, promove shows e especiais para lançar em CD e DVD, dos mesmos artistas - Rita Lee, por exemplo, gravou dois pela MTV e lança um novo pelo Multishow; medalhões como Capital Inicial (hum?) e Ivete Sangalo (virou sócia) se repetem; vozes como Vanguart e Vanessa da Mata já mergulham nesse esquema perverso.

Mas por que o silêncio da crítica?

03/06/09

Essa tal de literatura para crianças

"Ela ainda estava dormindo, mas podia sentir-se emergindo do sono, tal e qual um balão: era como se fosse um peixinho dourado em uma redoma de sono, subindo e subindo pelas águas quentes do sono para a superfície. E então acordaria."

Assim começa "A Árvore dos Desejos", livro infanto-juvenil escrito por William Faulkner, o único em sua obra. Está sainda em nova tradução para o português, depois de 33 anos.

Literatura para crianças do mais alto nível, que permite pensar, imaginar.

Em breve volta a falar sobre ele.