15/11/09

Espírito estimulado

Num intervalo de poucas semanas, saíram três livros de Elias Canetti, "Sobre os escritores", "Festa sob as bombas" e "Sobre a morte". Li o primeiro, reunião de aforismos, anotações e breves ensaios sobre escritores e o ato de escrever.

Canetti escreve de forma pessoal, como se fosse um diálogo com um diário. Seus textos podem ter páginas ou uma linha para que ele diga o que pretende. O espaço é irrelevante, ler os textos de Canetti sempre gera uma certa provocação nos espíritos.

Trechos
"O que um poeta não vê não aconteceu."

"A pergunta, a terrível pergunta: uma pessoa realmente é capaz de mudar?
No 'Banquete', Platão diz que sim, como se tivesse acabado de ler Heráclito. Eles carregam o mesmo nome durante toda uma vida, diz ele, e são outros, tudo neles, dentro deles, é sempre diferente.
Não confio nisso, não estou muito seguro. Sei onde sou sempre o mesmo que sempre fui. É difícil enxergar por nós mesmos onde somos diferentes."

"Nos 'Pensamentos', Pascal sempre interrompe, o que conta a seu favor. Cada um monta as peças de outras formas. Elas ficam melhor sem serem montadas."

"Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo. Talvez pudesse ser parecido com ele, se eu não fosse eu. É a primeira vez que considero a possibilidade de um outro nascimento para mim, e isso só por amor a Stendhal."

"Ainda prefiro Deus a Tolstói."

"Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo."

"Existe uma tensão legítima no escritor: a proximidade do presente e a força com que ele repele; a nostalgia do presente e a força com que o escritor torna a abraçá-lo. Assim, o presente nunca pode estar próximo o bastante. Assim, o escritor não tem como repeli-lo para suficientemente longe."

13/11/09

Hang the DJ


"Respect", Aretha Franklin. Achei que tinha a ver com que vem acontecendo...

"R-E-S-P-E-C-T
Find out what it means to me"

12/11/09

Palavras

Do blog de André Forastieri

Last Dance
Maria Amélia foi pra balada. Balada de tiazinha, claro: Donna Summer no Credicard Hall com uma amiga.

Com cinquenta anos, dois filhos, tá ótimo – Hot Stuff, Bad Girls, bom pra dançar, pra reviver a adolescência nos anos 70, pra lembrar como a vida é boa.

Era a noite do apagão. Fim de show, sem transporte público nem táxi fácil, mais de uma da manhã, Maria Amélia ofereceu uma carona para a amiga, que mora no Jabaquara.

Demorou. O trânsito na Avenida do Café estava travado. Luz na rua não havia. Estavam quase chegando. O Fiesta Preto avançava devagarinho, metro após metro.

Um motoqueiro aproveitou a escuridão. Encostou ao lado do Fiesta preto de Maria Amélia e apontou a arma. Ela pisou no acelerador. O motoqueiro apertou o gatilho duas vezes e fugiu.

A bala calibre 38 atravessou o cérebro de Maria Amélia Leite Roque Taiana.

Segundo o Ministro da Justiça, Tarso Genro, o apagão foi um “microincidente”.

***
Eu agora. Que o crime poderia ter acontecido em noite iluminada, durante o dia, na hora do almoço, em qualquer hora, é fato. Uma coisa é segurança.

Outra coisa é o alto escalão do governo federal adjetivar incidentes de forma a ignorar as consequências. Para a família da Maria Amélia, passou longe de microincidente. Faltam perspectiva e uma pitada de bom senso.

Claro que a questão política falou mais alto, o partido logo saiu correndo para minimizar possíveis efeitos eleitorais. Mas não custa nada medir as palavras e demonstrar um pouco mais de respeito com quem sofreu algum dano na noite do blecaute.

Saiu da cabeceira

Li "Peixe dourado", de J.M.G Le Clézio e sai com a sensação de abalroamento.

A história de Laila, raptada aos 6 anos e vendida para Lalla Asma no Marrocos, é uma sucessão de dramas, abusos e soluções rápidas. Não há um momento do livro em que a garota não enfrenta situações críticas ou que suas ações possam ser derivadas de uma vontade legítima, sem que tenha que fugir de um algoz.

Em pouco mais de 200 páginas, o livro, que começa de forma instigante, perde-se na tentativa de ajeitar todos os dramas. A garota passa por inúmeros lares, foge, comete pequenos delitos, vai para a Europa, depois aos Estados Unidos, sempre fugindo. Não encontra paz.

Vai encontrar o vigor narrativo no final, quando Laila completa um ciclo. Entre as pontas, Le Clézio opta por explorar um rumo que gera um cansaço, talvez por narrar uma história que parece distante por demais ou em que o leitor possa insistir em não enxergar.

Durante a leitura, estourou o caso Geisy Arruda. Uma ficção levada às manchetes, que provocou a mesma sensação.

Laila também passou por humilhações e abusos. Em sequência. Para encontrar paz, teve que voltar ao ponto inicial.

Sua vida é um retrato das mulheres que não encontram paz para viver, sempre à mercê dos homens que as cercam. Do norte da África ao sudeste brasileiro, as semelhanças são assustadoras. Impossível dizer o que é ficção, tanto em São Bernardo do Campo como no Marrocos.

• Mais Le Clézio no VERBO TRANSITIVO
"O africano"

11/11/09

Aquele vestido

A "Folha" soltou hoje uma pegadinha. Levou uma atriz de vestido curto, sem sutiã, para algumas universidades em São Paulo, instituições de alunos com maior poder aquisitivo e com maior graduação no MEC do que a Uniban - o que não é muito difícil.

Fez a moça andar por grupos de alunos, realizar perguntas sobre a faculdade, onde era o banheiro etc. Com o caso de Geisy Arruda ainda quente, a reação foi comparativa e imediata.

Mas, ao contrário da horda da Uniban, a revolta foi silenciosa.

As garotas xingavam pelas costas, ironizavam e a chamavam de puta. Os garotos ficavam de olho, sem jeito. Reações que demonstram um conservadorismo envergonhado. Elas, com medo do que a atriz poderia fazer com o lado masculino da comunidade, preferem desqualificá-la. Como se a puta fosse alguém que pudesse desestabilizar o ambiente, sem que as garotas demonstrassem confiança. A roupa, nesse caso novamente, carregava uma culpa quase mortal para as moças.

Já os rapazes agiam como se fossem bobalhões diante de uma mulher bonita, consciente e confiante. Seja ela puta ou não, demonstrava uma postura com as quais o macho não consegue lidar, apenas quando o poder entra em jogo - no caso da Uniban, em forma de linchamento, ou com dinheiro para quem costuma contratar serviços profissionais para se satisfazer.

O que espanta é a falta de confiança das pessoas em lidar com adversidades, diferenças e liberdades. Qualquer peça que saia da engrenagem padrão, que perturbe a rotina, parece gerar distúrbios nas mentes. Uniban, PUC-SP, USP, Universida, Inib e FMU, da classe média aos mais endinheirados, a faculdade perde o poder de diálogo.

Mais do que o diploma, o que se vê hoje, me parece, é uma tentativa de estabilidade forçada, de machos e fêmeas em papéis separados e definidos. Lógico que daria nos ataques da Uniban e nos xingamentos no campus da PUC.

Das trevas ao fim das baterias

A conversa some de repente. As luzes se apagam, apenas uma luminária insiste em sobreviver, apenas por alguns segundos, vai piscando até se exaurir. Lá fora, apenas o luar, de uma noite nublada. Luzes de emergência, faróis de carros, luzes de geradores.

A energia não volta.

Descubro que em outros cantos houve picos de luz, mas não a queda.

Com o fim da luz, em meio à noite de terça-feira, surge a dúvida: o que fazer agora? Olho sem querer para a luz de repouso do laptop e me reanimo, há uma solução para a noite, ainda cedo, pouco mais de 22h.

O celular me ajuda a guiar para desligar as tomadas, tirar o laptop do seu lugar e levá-lo a outro canto. Retomo um trabalho até a bateria acabar. Lembro do iPod, com outro audiolivro armazenado. Infelizmente, a bateria está no fim, ouço pouco mais de 10 minutos.
A bateria do celular também vai abaixando, enquanto bipa com a sucessão de mensagens.
22h30: toda sp ta no escuro
22h31: sp, rj e rs..
22h44: sp, rj, rs, pe e parte de mg
22h55: a folha saiu do ar. G1 fala sobre pane em itaipu
23h44: 800 cidades sem luz. Previsão de 1 ou 2 dias para reestabelecer as linhas de transmissão
23h49: ta recebendo as msgs?

Sim, recebia as mensagens, só não me manifestava porque a bateria estava baixa, uma daquelas infelizes coincidências. Até que me lembrei que tenho guardado um telefone de fio, que não precisa de energia para funcionar. Fui até ele, instalei e recuperei as minhas linhas de transmissão.

Depois, agoniado com a falta de sono característica para o horário, me fiz lembrar que, sim, eu tenho velas em casa. Acendi umas cinco, deixei-as ao redor da poltrona da sala e me armei de um livro. Li sem esforço, numa cena setecentista.

De tempos em tempos, me debruçava na janela olhando para um mar de prédios todos na escuridão, com as ruas já silenciosas, imaginando um possível caos na cidade. Hospitais, metrôs, cinemas, restaurantes, bares, avenidas, cruzamentos, saídas de escolas, a falta de luz gera uma incerteza com a qual não estamos preparados a lidar.

Estranho olhar para os edifícios escuros, como se fossem peças abandonadas, num local devastado. Somos bichos de luz, tais como aqueles insetos que rodeiam lâmpadas em dias quentes. Já passa da 1h quando apago as velas e vou para a primeira tentativa de sono. O escuro, de alguma forma, me estimulou. A sensação de "o que eu posso fazer agora?" ficava a me perturbar, pois sabia que não havia nada mais a fazer.

Um segundo iPod me alivia com uma seleção curta de músicas, o suficiente para acreditar que o sono havia chegado. Eram 2h, e a luz ainda não voltara. Sem saber o que havia acontecido, com poucas informações, abriu-se uma espécie de hiato. O que incomodava não era tanto o escuro, mas o fato de não saber. Se havia transmissão de TV e internet para outros lugares, não me conformava com o fato de não conseguir ter uma informação.

Mas e daí, estava lá com as velas e o livro, com os últimos recursos de baterias, com um telefone que me conectava ao mundo - mundo que ou tivesse telefone semelhante ou não fosse atingido pelo blecaute. Delírios ficcionais surgem, criando universos fantasiosos em meio à escuridão, imaginando cenas de Hollywood, invasões hackers, um caos destruidor. Até que o sono não resistiu.

Às 3h05, lembro imediatamente de uma música do Legião Urbana, "Eu era um lobisomen juvenil": "Teve torcida gritando quando a luz voltou". Vou ao interruptor do quarto para ter certeza. Aguardo uns 10 minutos antes de religar a geladeira. Volto a dormir, com uma vontade imensa de ligar a internet, vencido pelo sono e pelo restante de escuridão que ainda havia para aproveitar, sem saber se a escuridão atiça instintos, provoca criatividade ou gera abstinência.

10/11/09

A cumplicidade possível

Há algumas imagens que são ícones de um amor romântico, idealizado. Coisas que dois parceiros adoram falar um para o outro, por exemplo, a vontade de envelhecer ao lado do companheiro, enfrentando os obstáculos da idade.

Um certo cansaço, uma falta de paciência, talvez uma dor aqui. Envelhecer sozinho amedronta boa gente, e uma viuvez precoce pode fazer com que essa gente case novamente, para não ter que passar a terceira idade - ou melhor idade, como dizem os manuais politicamente corretos - solitária, quem sabe por medo da solidão, que costuma ficar barulhenta com o passar dos anos.

A companhia estimula. As dores são iguais, as lembranças batem do mesmo jeito. Talvez o mais importante seja a cumplicidade. Melhor se vier com o tempo.

Um casal de idosos que mora andares acima do meu costuma me cumprimentar sempre que os encontro, no elevador, nos jardins em frente ao edifício, nas ruas do bairro. Às vezes, estão no banco do jardim, tomando o sol da manhã. Em outras, vão ao supermercado ou à padaria. Ou então estão somente andando, deixando o tempo passar.

Não sei os nomes deles - esta infeliz distância resultado de uma cidade que acha normal apenas o reconhecimento facial, algo que me culpo -, devem ter seus 60, 65 anos. Não sei se têm filhos ou netos, nem familiares.

Estão sempre bem humorados, fazem os comentários clássicos sobre o tempo, discutem sobre o troco da padaria, caminham de mãos dadas, ela com um pouco mais de dificuldade, no seu físico mirrado, ele, com marcas da idade, mas com mais vigor.

Olho para eles e vejo que aquele clichê romântico é possível. Não conheço a história desse casal, mas a felicidade com que os dois vivem, felicidade que é transparente nos momentos em que os flagro, entrega que existe algo mais do que a vontade de querer passar o resto da vida juntos.

Lembrei desse casal quando vi esta foto da National Geographic, na seção Photo of the day. A neta registra a avó arrumando o chapéu do avô antes de uma foto na plantação de cevada, na Nova Zelândia.
Eles foram casados por quase 60 anos. E aquela foi a última colheita do avô.

09/11/09

A guerra de Tarantino

Um filme de Tarantino sempre provoca alvoroço, no público e na crítica. Em 17 anos, ele lançou apenas sete longas, o que gera sempre um burburinho nos hiatos de cada filme. Barulhos diferentes, como o alvoroço em "Cães de aluguel" e "Pulp fiction", a desconfiança com "Jackie Brown" (talvez o meu preferido) e "Kill Bill".

Seu "Bastardos inglórios" chegou com balbúrdia, dois anos depois do fracasso de "Prova de morte", filme que nem estreou no Brasil ainda. Um Brad Pitt com queixo de Marlon Brando, o cenário da 2ª Guerra Mundial, na França, uma história que envolve um esquadrão da morte judeu, um caçador de judeus carismático, elementos que levaram o filme de Tarantino a uma exposição antecipada.
Tarantino sabe filmar e escrever. Seus diálogos são espertos, cheios de segundas intenções, rápidos, sem dar dicas para onde a ação irá caminhar - podemos até imaginar um rumo, mas podemos trocar de ideia 10 segundos depois, sem que ele faça do desenvolvimento um ato forçado a surpreender o espectador.

Pitt é um coadjuvante de luxo, seu papel é quase caricato. "Bastardos" é de Christoph Waltz, que vive Hans Lana, o caçador de judeus. Sua interpretação é das melhores coisas do cinema neste ano.

De resto, se "Bastardos" tivesse uns 30 minutos a menos seria um filme acima da média, com boas sacadas, um roteiro diferente, uma farsa. Longo, com mais de 2h, fica arrastado em alguns momentos e seu impacto se perde.

Por que será que fazer um bom filme com 100 minutos é tão difícil?

08/11/09

Talibãs fashionistas na faculdade

"Foi apurado que a aluna tem frequentado as dependências da unidade em trajes inadequados, indicando uma postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento."

"A sindicância apurou que, no dia da ocorrência dos fatos, a aluna fez um percurso maior do que o habitual aumentando sua exposição e ensejando, de forma explícita, os apelos de alunos que se manifestavam em relação à sua postura (...)"

"A aluna optou por um percurso maior ao se dirigir ao toalete, o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas (...)"

Sob o título "Responsabilidade educacional", a Uniban veiculou anúncios nos jornais de hoje comunicando a expulsão da aluna Geisy Arruda, que quase foi linchada por uma turba no campus de São Bernardo do Campo. Os trechos acima foram tirados do texto da peça.

Em seu blog, Marcos Guterman diz que a decisão foi o ato final do linchamento. As justificativas são risíveis e até simplórias. Aplicar a pena baseado em trajetos longos? Postura incompatível? E a ação de alunos e professores, essa sim é uma postura compatível com a universidade (sic)?

No site da Uniban, no link Missão e Valores, assim a universidade apresenta seus objetivos:
• "Promover a formação integral do indivíduo, por meio da capacitação profissional, da produção e aplicação do conhecimento, da promoção da cultura, do respeito aos valores éticos-morais, através de um processo educativo contínuo de qualidade, voltado para o desenvolvimento da sociedade."

• "Ser uma instituição de referência na Educação Superior no que diz respeito à qualidade de ensino e do corpo docente, à pesquisa e ao compromisso social."

Destaca cinco valores, dois reproduzidos:
• "Ética - Observar os mais elevados princípios e padrões éticos, dando exemplo de solidez moral, honestidade e integridade."
• "Ser humano - Propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho."

Claro que os textos são articulados por meio de teses de autoajuda, textos padrões, só blablablá básico. Mas me parece um tanto pretensioso diante do que aconteceu, mais, um tanto além dos corpos discente e docente, principalmente a parte que participou dos ataques. Além disso, quem escreveu o anúncio e quem decidiu pela pena esqueceram claramente das "missões" e dos "valores" da Uniban.

A proliferação de faculdades e universidades particulares de qualidade questionável, geridas na esquina, iria gerar distorções como essa, em que é possível acontecer absurdos como a decisão da Uniban. Não é preciso ser sociólogo, antropólogo ou educador para perceber que tem algo errado nesse ensino "fast food", e que o Brasil irá pagar por isso em algum momento.

Os colegas da garota expulsa cursam turismo. Imagine então o que vai acontecer com os receptivos na Copa-14 ou Olimpíada-16 quando esses estudantes se tornarem profissionais do turismo. Estão eles preparados para encarar culturas diversas, comportamentos diferentes?

E as turmas de jornalismo? E os arquitetos? Enfermeiros? Filósofos (!!)?

A Uniban revelou uma cara machista, preconceituosa, atrasada, moralista. Culpa a mulher pelo estupro, coisa primitiva, de investigações policiais arcaicas, do século 18. Essa é a cara do ensino no país. Tanto que o "Fantástico" transformou a questão numa matéria de moda. Superficial, reducionista.

Estar com um vestido curto e justo é uma coisa. Ser atacada com violência por alunos e professores é outra coisa, muito diferente. Como no Brasil as aparências são mais importantes do que conteúdo, é mais fácil expulsar a aluna que fez um trajeto mais longo do que punir os atacantes, quase 100% da faculdade. Educar dá trabalho. Pais que, segundo a universidade, reclamaram e protestaram contra a garota para pedir a expulsão. Claro, é mais fácil expulsar o "perigo" do que educar os filhos. Fechar os olhos sai como a melhor decisão, assim, todos imaginam criar futuros e responsáveis cidadãos, atentos aos bons costumes.

Não é preciso ser especialista em publicidade para chegar à conclusão de que essa decisão é um tiro no pé. Mas há opções para os vestibulandos? Mais. Esses vestibulandos querem opções?

Quem sabe o "Fantástico" não faz mais matérias sobre moda em universidades. Assim, todas as garotas que não se vestem com sobriedade poderão ser expulsas do universo escolar, acabando de uma vez por todas com a má influência que elas exercem sobre os alunos e o ambiente pedagógico.

20 anos depois

Leio nos jornais um farto material sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Lembrei de duas obras que retratam o período de forma diversa, mas que valem como peça essencial para entender o que aconteceu naquelas Alemanhas.

Um é o livro "Stasilândia", já tratado aqui. O outro é o filme "A vida dos outros", que indiquei no final do post sobre o livro. É a história de um policial da Stasi (a polícia política da Alemanha Oriental) que se envolve com um casal que está sob investigação em Berlim. Venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

O filme se passa cinco anos antes da queda. Na tocaia para observar e ouvir o que se passa na casa dos dois investigados, o policial rompe a barreira fria que a Stasi incutia em suas fileiras e revela uma certa humanidade. Um belo filme.

***
Aparte
Não me lembro muito bem de 1989. Vou buscar na memória fatos que me coloquem naquele ano. O fim de um namoro, o início de uma faculdade, uma turma de amigos que se foi, outra que chegou, um verão que marcou época, uma Erundina eleita, mas aquele 9 de novembro me passa incólume nessa busca.

Seus reflexos surgiram quando assisti "Asas do desejo", com sua alusão ao muro nas vestes de anjos. Em 1993, com "Tão longe, tão perto", já com o muro no chão e com uma belíssima Nastassja Kinski, loira, Wim Wenders retomou o tema, mas aquém do original. Era uma tentativa de refletir a unificação.

Aquele 9 de novembro me é distante, por mais que eu tente cavucar. Pessoalmente, um muro também havia caído.

06/11/09

Hang the DJ


"Nothingman", Pearl Jam. É a música de fundo para uma das mais belas cenas de "Californication", no final da segunda temporada.

No dia da morte de Kurt Cobain, Hank e Karen estão se despedindo, quando ela o chama para acompanhar a vigília dedicada a Cobain. O que a motivou foi uma carta, que Hank lê em off, uma declaração de amor comovente. Depois, a cena pula para 2008, época em que se passa a temporada.

Seriado um tanto sexual, pervertido até, esconde em seu roteiro uma grande história de amor, muito bem recortada pelos roteiristas. Ele é um escritor que publicou um livro de sucesso em Nova York. Ao se mudar para Los Angeles, sofre um bloqueio, ao mesmo tempo em que tenta recuperar sua mulher.

Tem bom humor, sarcasmo, não liga para convenções, tem um excelente roteiro, diálogos dos mais criativos. Em DVD, foram lançadas duas temporadas. Nos EUA, está na terceira.

"Querida Karen,

Se você está lendo isso é porque eu realmente tive coragem de enviar. Você não me conhece muito bem, mas, se deixar, verá que tenho o costume de falar que tenho dificuldade para escrever, mas isso... Isso é a coisa mais difícil que já escrevi. Não há maneira fácil de dizer, então vou falar logo.

Conheci uma pessoa. Foi um acidente. Eu não estava à procura e não estava preparado.

Foi uma tempestade perfeita. Ela falou algo, eu também. Quando percebi, queria passar o resto da minha vida naquela conversa. Agora estou com a intuição de que ela pode ser a mulher certa. Ela é totalmente louca, de um jeito que me faz sorrir (...).

Ela é você, Karen. Essa é a boa notícia. A má é que não sei como ficar com você neste momento. E isso me assusta. Porque, se não ficar com você agora, sinto que nos perderemos por aí. O mundo é grande, mal, cheio de reviravoltas. As pessoas costumam piscar e perder um momento. O momento que poderia mudar tudo. Não sei o que está acontecendo entre nós, e não posso dizer por que você deveria ter um pouco de fé em alguém como eu.

Mas como seu cheiro é bom, como o lar (...)"

05/11/09

Machos de plantão

A coluna de Contardo Calligaris de hoje na "Folha" trata do caso da garota que foi quase linchada e estuprada em público numa universidade em São Bernardo do Campo por ter aparecido de vestido curto e dos xingamentos que rodeiam o futebol (falei superficialmente aqui).

Reproduzo a coluna abaixo, que lança alguma luz no ato medieval numa universidade (!?) e na terra devastada dos campos de futebol.

***
A turba da Uniban

Na semana passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.

O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

Cinema obsessivo

A Mostra Internacional de São Paulo termina hoje. Não assisti a nenhum filme. Não faltaram títulos que me entusiasmassem para enveredar pelas salas de cinema. Sobrou preguiça.

Anos atrás, ir a uma sessão da Mostra era algo prazeroso. Sessões lotadas sempre existiram, mas não havia um frisson como existe hoje, em que pairam uma certa tensão e ansiedade excessiva na procura por ingressos não só de filmes de diretores consagrados ou cults, mas de qualquer filme, qualquer diretor.

Tem gente que concentra suas visitas anuais ao cinema nesses dez dias de outubro. O resto do ano passa sem ir a uma sala de exibição. Ir à Mostra dá status. Preguiça...

Por que brigar para assistir ao último de Almodóvar se em duas semanas ele estreia no Brasil? Talvez eu quisesse assistir aos filmes sobre Maradona e Eric Cantona. Mas que agonia para comprar um ingresso, impossível.

A Mostra me apresentou Kieslowski e seu "Decálogo" lá no final dos anos 80. Foi lá que assisti, já em 94 ou 95, ao encontro de Wim Wenders e Antonioni ("Além das nuvens"). Entre outros.

Até 1996, comparecia a algumas sessões. Depois, com a vida em outra cidade, só via a Mostra pelos jornais. Quando retornei a SP, logo no primeiro ano, em 2005, ingenuamente, fui tentar comprar ingresso para "A divina comédia", de Manoel Oliveira. Lotado com dias de antecedência. Troquei por "2046", de Wong Kar Wai. Vi dois casais se estapeando, literalmente, por causa do último ingresso. Desisti.

Ano passado, a trabalho, retornei à Mostra. Vi poucos filmes, mas o clima era o mesmo. Vale mais a conversa na fila de espera, com o guia folheado incessantemente, do que sentar, esperar o escuro e assistir a um filme. O que salvou foi a entrevista que fiz com Wim Wenders (aqui e aqui).

Pena. A Mostra era uma forma simples e agradável de se interagir com a cidade. Hoje, virou obsessão.

04/11/09

Minha ideia de felicidade 13

Comida caseira.

03/11/09

Da mutilação ao tédio

Não entendi "Anticristo". Confesso. Não lembro das críticas publicadas na época e me recusei a procurá-las depois de assistir ao filme de Lars von Trier. Não entendi o burburinho, pois a história é até banal.

Um casal em crise após a morte do filho busca refúgio em Éden, uma floresta que revela segredos do passado de ambos. Há sexo - as cenas explícitas me pareceram gratuitas, como a da abertura -, há mutilação, extremamente realistas visualmente, há tortura psicológico, que em vários momentos irrita o espectador - ao menos, me irritou.

Von Trier usa elementos do gênero terror consagrados em produções americanas, como a música como antesala do susto, cenas aparentemente normais que antecedem um ataque, por exemplo. Mas, com exceção de uma única cena, esses recursos passam distante da sua origem e funcionam apenas como elemento instigador.
Em vários momentos me lembrou "Eu sei que vou te amar", um dos filmes mais chatos que já vi, de Arnaldo Jabor, com uma Fernanda Torres com cara de menina, discutindo a relação de forma interminável com Thales Pan Chacon. Em outros, em cenas como as regressões da mulher, tive a sensação de estar diante de "A vila", de M. Night Shyamalan. Até a "Bruxa de Blair" ganhou eco.

"Anticristo" me pareceu um exercício de pretensão. Como Von Trier já é pretensioso por vocação, o filme, que causa um certo "e daí?" ao final, saudável em obras como de Antonioni, por exemplo, só causa tédio e arrependimento.

30/10/09

Hang the DJ


"I got you (I feel good)", James Brown. Porque hoje é sexta...

29/10/09

Uma nova leitura

Acabei de ouvir a biografia de Tim Maia, "Vale Tudo", de Nélson Motta. Experiência nova, nunca tinha entrado no campo do audiolivro. No começo, estranhei demais o gênero, talvez com um certo preconceito de enveredar por uma "leitura" que me era desconhecida. Livro para mim sempre foi no papel.

Ouvir requer uma concentração maior do que ler no papel. Instantaneamente nos desviamos da "leitura", como se a narração fosse um música qualquer. Com o tempo, as coisas se ajustam e a "leitura" flui, sem atropelos.

Claro, o título facilita o interesse. Tenho quase certeza de que ouvir alta literatura seja inviável - e a lista de livros disponíveis caminha nessa direção, títulos de autoajuda, biografias pop, humor e um ou outro bestseller são maioria. Mas a biografia de Tim Maia revela interesse, provoca gargalhadas, tem uma história saborosa, e isso faz com que ouvi-la se torne uma tarefa bem mais do que agradável - apesar do texto insosso de Motta, cheio de clichês, que só se salva por conta da vida de Tim Maia, um personagem dos mais interessantes, ricos e idiossincráticos.

Como é que nunca ninguém filmou essa história?

28/10/09

Saiu da cabeceira

Hoje, investigação policial com técnicas forenses é coisa banal na TV. Os três "CSI", mais "NCIS", "Bones", para citar três exemplos, exploram o detetive que trata o crime como ciência. Não era assim no século 19.

É o que mostra Kate Summerscale em "As suspeitas do sr. Whicher", livro que conta a história da investigação de um crime que chocou a Inglaterra na segunda metade dos oitocentos. Jack Whicher pertence à recém-criada Polícia Metropolitana, especialmente dedicada à investigação criminal e ligada à Scotland Yard. Era uma época em que o sistema judicial não prezava a figura do detetive, ainda incipiente.

Com o assassinato de um menino de 3 anos, de uma família de Road Hill, Whicher deixa Londres para investigar o crime. Lá, prende-se a detalhes pouco explorados pela polícia local, o que custa sua reputação - detalhes da vida pessoal da família surgem na imprensa, que ainda não desempenha um papel investigativo, apenas publica as versões oficiais, disputadas por uma infinidade de publicações.

Essa atenção a modos de ser, a peças de roupas, à linha do tempo faz com que a investigação não avance, enquanto existe a pressa por condenação.

Summerscale faz uma pesquisa criteriosa em arquivos de jornais e bibliotecas para reconstruir a época e o caso. O mais bacana do livro é o paralelo que ela traça com a recente literatura policial, que também começava a criar corpo na época.

Fala de Edgar Allan Poe, Charles Dickens - este, inclusive, escreve sobre o crime para jornais -, Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes) e Wilkie Collins, que cede trecho de seu "A pedra da lua", um clássico do romance policial, para a epígrafe do livro. Whicher vai inspirar uma série de personagens que o gênero iria criar a partir de então. Summerscale conta como essa história começou.

27/10/09

Comunidade, identidade, estabilidade

Fiquei sabendo pelos jornais que o metrô criou uma nova forma de embarque na estação Sé, para quem vai para a zona leste de São Paulo, no final da tarde. Esse destino é um dos mais tumultuados, o fluxo de pessoas é maior do que as plataformas comportam. O que causa sempre um certo desconforto.

Tinha entendido que uma série de barreiras e um batalhão de "orientadores" fazem uma triagem e distribuem as pessoas por zonas de embarque, para determinados vagões. Achei confuso, mas se ajudasse o povo a tomar o metrô de volta para casa de um jeito mais civilizado já seria um avanço.

Mas eis que eu conheci parte do novo método de embarque. Não o das barreiras e dos "orientadores", mas o da sinalização. A foto, feita pelo celular, fala melhor.
No chão das plataformas, foram pintadas marcas que indicam o local exato onde o passageiro deve esperar o trem, como um batalha naval. Isso, às 18h, deve ser das coisas mais ineficientes já imaginadas.

Coisa de "Admirável mundo novo", mecanizada, robotizada. Certo é que embarcar no metrô de SP em determinados horários exige mais do que paciência, tal como um preparo físico que suporte o desafio de empurrões, chutes, apertos e afins.

Claro que faltam quilômetros de metrô para aliviar esse sufuco. A malha de hoje é um desenho que seria atual há 50 anos. Triplicar, como é o desejo do governo e as obras indicam, começa a aliviar, mas não resolve. SP precisa de no mínimo cinco vezes a quilometragem atual.

Com essa brincadeira de batalha naval, o metrô olha para o passageiro como um robô. É mais fácil controlar (ou tentar) do que planejar (e agir).

"Passou a mão pelos olhos, como se procurasse apagar da lembrança a imagem daquelas longas filas de anões idênticos nas mesas de montagem, daquelas manadas de gêmeos enfileirados na entrada da estação do monotrilho de Brentford...

Imagine uma usina cujo pessoal fosse construído por Alfas, isto é, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, com boa hereditariedade e condicionados de modo a tornarem capazes (dentro de certos limites) de fazerem livremente uma escolha e de assumirem responsabilidades. Imagine isso!"
("Admirável mundo novo", Aldous Huxley)

26/10/09

Sexy sua

Eis que chega a última revista Vip promocional, a terceira. Abro e vejo na capa que Grazi Massafera foi a eleita a mulher mais sexy do mundo pelos leitores. A segunda foi a Juliana Paes, seguida por Scarlett Johansson, Ana Hickmann e Sandy - são as cinco primeiras, a lista das 100 vai aqui.

Viro as páginas e encontro dezenas de nomes de mulheres que nunca ouvi falar, nunca vi fotos, nem nada. Do Brasil e do exterior. Por exemplo, uma tal de Dulce Maria, que, segundo a revista, é integrante do RBD e já escreveu um livro - foi a 20ª colocada. Ou Cidia Luize (89), que teria sido revelada pelo "Fama". Talvez a minha "preferida" seja Barbara Koboldt (79), assim apresentada: "Ela já pousou nua, tem dois filhos, trabalhou como repórter do Otávio Mesquita. E finalmente ingressa nas 100+ graças a sua participação no reality show 'A fazenda'".

Lamento por Jennifer Connelly ter aparecido muito atrás (96), assim como Alessandra Negrini (57). Estranho a sexta colocação para Emma Watson, que faz Hermione na série cinematográfica "Harry Potter" - seriam os leitores de "Vip" admiradores de Nabokov?
Grazi Massafera foi BBB e percorreu o caminho natural depois do show. Posou nua, frequentou todos os programas da Globo e chegou à dramaturgia. Não sei quantas novelas ela já fez ou se já aventurou por outras artes. O que leio em jornais e internet é que ela é uma moça esforçada, sem talento, mas que insiste e se prepara.

Disse recentemente que está estudando e que chega em casa e vai direto para o Google pesquisar tudo aquilo que seus companheiros de trabalho falam durante as gravações. Comovente. Além de tudo, é esperta. Essa declaração mostra uma certa humildade e vontade de aprender, mas mostra também que ela sabe jogar. Indiretamente, classificou seus colegas de pessoas inteligentes, cultas, que falam coisas que ela não entende.

Resta saber se ela é, me perdoem a palavra, burra demais e não entende o abc proferido nos estúdios, ou se ela é mais esperta do que todos eles, que não dizem nada e ainda recebem elogios como este. No primeiro caso, ela continua a ser alvo de zombaria, ainda que corajosa ao se expor - o que é louvável num aglomerado de "estrelas". No segundo, dá um tapa de luva de pelica que merece aplauso.

Não votaria nela como a mulher mais sexy do mundo, mas Grazi ganhou alguns pontos comigo após o caso do Google.

25/10/09

Arquibancada caseira

Não preciso ligar a TV, a internet nem o rádio para saber os resultados de jogos que envolvem times paulistas. Os gritos e xingamentos que ecoam no entorno de onde moro me obrigam a saber qual time marcou um gol.

Por aqui, a maioria é são-paulina, com palmeirenses e corintianos a seguir, com algum espaço para santistas.

Hoje, com sete gols no clássico Santos x São Paulo, foi uma festa. Mas foi também um show de horrores, pois aos gritos de gol mais a vibração somaram palavrões vindos de janelas vizinhas. Coisa de baixo nível, que ganharia destaque numa arquibancada qualquer.

Falaram e criticaram Maradona pois ele mandou seus opositores "chuparem" após a vitória sobre o Uruguai, que classificou a Argentina para a Copa-2010.

Pois bem.

Quando o São Paulo marcou um gol de empate, após os gritos e xingos, um garoto, de no máximo 12 anos, perceptível pela voz, bradou de alguma janela: "Chupa, peixe, chupa que é bom, peixe".

Imediatemente, outro garoto, também da mesma faixa, soltou a resposta: "Chupa você que é bambi", referência ao apelido dado pelas torcidas aos são-paulinos.

E assim foi durante os outros cinco gols, "chupa, peixe" de um lado, "chupa, bambi" de outro.

Que o futebol, em todos os seus níveis, é machista, sabemos. Então, resta acrescentar a esse ideário o "chupa", alusão à felação, recurso tipicamente machista, como se tal prática fosse uma humilhação, ou, mais provável, uma forma de poder e submissão.

(Temo cair em psicologia barata - se é que já não cai, me perdoem.)

O futebol permite essa liberalização, como se xingar o outro fosse um similar a treinar boxe, um socar constante como forma de aliviar a raiva. Então, esse futebol libera machões e machinhos, a gritar da janela de casa, deixando companheiras, mães, pais todos orgulhosos do "chupa" - e creio que a bebida tenha alguma participação nas ações e reações.

Uns brigam, alguns chegam a matar. Outros xingam árbitros, jogadores e técnicos, até atiram coisas no gramado. Muita gente grita da janela, vibra, extravasa. O futebol acaba por gerar uma série de reações, condenáveis ou não, e o grito de "chupa" esbravejado por dois garotos de 12 anos não revela nada além de puro preconceito e ignorância, triste de se ouvir, pois longe de ser uma disputa saudável de dois torcedores mirins.

23/10/09

Hang the DJ


"Uns dias", Paralamas, uma espécie de homenagem na trilha do documentário "Herbert de perto" - com Dado Villa-Lobos, tanto lá como aqui.

22/10/09

No escuro

A música chegou no final do episódio "Os emancipadas", da quinta temporada de "House". Voz e violão, que poderiam até lembrar Damian Rice, mas a voz é um pouco mais grave, pontual.

Hoje, Google a postos, descobri autor e música, Alexi Murdoch, "Through the Dark". Nunca tinha ouvido falar... Não sei se o cara é uma espécie de James Blunt ou se é da estirpe de Rice.

Sei que baixei o EP "Towards the sun" e ainda não me recuperei.

21/10/09

Saiu da cabeceira

Após ler "A morte do gourmet", fui atrás do outro livro de Muriel Barbery traduzido para o português, "A elegância do ouriço". Sua prosa fluente me fez curioso.

Este "A elegância" chegou primeiro ao Brasil, mas sua ação se passa depois de "A morte". Barbery recupera o crítico gastronômico Pierre Arthens, prestes a morrer, para contar a história num edifício parisiense.

Reneé é a zeladora que gosta de deixar a impressão preconceituosa de seus moradores viva, a de que ela é ignorante e apenas está lá para servi-los. Bem educada, leitora de Tolstói e de filosofia, fã de Yasujiro Ozu, ela vive solitária com seu gato, enquanto destrincha o comportamento daquela pequena vila burguesa.

Ela é uma das narradoras, a que conduz a história, margeada por Paloma, uma adolescente em crise que resolve se matar. Alternadamente aos capítulos de Reneé, lemos páginas dos diários da garota, que marcou data e modo para sua morte.

Críticas sutis (de Reneé) e nem tanto (de Paloma) ao modo de viver dos moradores, superficiais e egoístas, dão o tom do romance, que mistura tons de filosofia e fúria juvenil. Barbery consegue se equilibrar nessa corda, sem se aprofundar de um lado e sem cair no ridículo do outro - entendemos o mergulho filosófico e compreendemos o discurso banal de uma garota de 13 anos.

O cotidiano do condomínio irá mudar com a chegada do senhor Kakuro Ozu, mais do que uma coincidência de nomes, mas também um leitor de Tolstói. Ele irá chacoalhar a vida de Reneé e seus preconceitos, irá fazê-la repensar sua misantropia e abrir algumas portas - vai até provocar um elo improvável com Paloma, para facilitar a aproximação com a zeladora.

"A elegância do ouriço" é uma crítica de costumes das mais interessantes, ainda que não incisiva, mas cuja leitura se revela prazerosa. A morte, personagem que ronda a narrativa, irá suscitar devaneios em Reneé, que se vê diante da finitude.

Muriel Barbery é uma autora a ser acompanhada.

Trechos
"Termino às nove da noite, e de súbito me sinto velha e muito deprimida. A morte não me apavora, menos ainda a de Pierra Arthens, mas é a expectativa que é insuportável, esse oco suspenso do ainda não, diante do qual sentimos a inutilidade das batalhas. Sento-me sozinha, em silêncio, sem luz, e experimento a sensação amarga do absurdo. Minha mente deriva devagar."

"Qual é essa guerra que travamos, na evidência de nossa derrota? Manhã após manhã, já exaustos com todas as batalhas que vêm, reconduzimos o pavor do cotidiano, esse corredor sem fim que, nas derradeiras horas, valerá como destino por ter sido tão longamente percorrido. Sim, meu anjo, eis o cotidiano: enfadonho, vazio e submerso em tristezas. As alamedas do inferno não são estranhas a isso; lá caímos um dia por termos ficado ali muito tempo. De um corredor às alamedas: então se dá a queda, sem choque nem surpresa. Cada dia reatamos com a tristeza do corredor e, passo após passo, executamos o caminho de nossa sombria danação.

Ele terá visto as alamedas? Como se nasce, depois de se ter caído? Que pupilas novas em olhos calcinados? Onde começa a guerra, e onde cessa o combate?

Então, uma camélia."

20/10/09

Olhares

Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires.

19/10/09

O som do sim

O documentário "Herbert de perto", sobre o vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, poderia ser um filme facilmente piegas e de apelo emocional raso. Só que a produção de Roberto Berliner e Pedro Bronz escapa com certa autonomia dessa armadilha.

É um filme de amigos, portanto, não vemos o "outro lado", que poderia acrescentar informações à personalidade de Herbert Vianna. É francamente a favor, e não reside nessa opção nenhum problema, claro, levando em conta que o documentário não é laudatório. Bi e Barone são, de certa forma, as molas de sustentação do filme e de Herbet.

De forma cronológica, passa rapidamente pela infância, a formação da banda e por várias fases da carreira - explora com mais cuidado a virada com "Alagados", do terceiro disco "Selvagem?", rebate críticas sem expô-las da fase "Os grãos" e revisita o sucesso do primeiro Rock in Rio.

Quando trata do acidente, introduz o assunto por meio do depoimento de Dado Villa-Lobos, que estava próximo ao local da queda do ultraleve de Herbert. É o grande momento do filme, quando relata o acidente e suas consequências com uma proximidade tocante. Herbert assiste a vídeos de sua mulher, morta no acidente, abre sua casa para mostrar a relação atual com os três filhos.

Os diretores não forçaram a emoção no músico, recurso tão comum e banal que recheia entrevistas da Globo, por exemplo, pronta para dar o close em lágrimas. A emoção de Herbert é visível e legítima, mas a câmera mantém a distância necessária.

Não é dirigido a fãs dos Paralamas, mas a quem se interessa por boas histórias, trágicas neste caso, histórias que carregam amizade e amor. Comove assistir a devoção de Herbert por sua mulher. E ajuda a entender de onde ele tirou tanta força para continuar e seguir em frente.

18/10/09

Um cinema

Sábado chuvoso, rodeio as prateleiras da locadora e não encontro nada que me interesse. Dezenas de lançamentos, um acervo precioso, mas não vejo um título que me convença. Reconheço filmes de qualidade, bem falados por críticos que costumo seguir e por gente que gosta de cinema (e entende).

Como o companheiro PH, que falou bem de filmes como "Desejo e perigo", de Ang Lee, e "A partida", de Yojiro Takita, obras que me tentaram a ir ao cinema, agora me tentam a levar para casa, só que ainda não me entusiasmei o suficiente.

Quando lembro de dez anos a trás, tenho certeza de que esses dois filmes já teriam passado pela retina, de uma forma ou outra. O cinema hoje já não me convence mais como antes. Havia muita coisa para descobrir (ainda há), autores que precisavam ser vistos, que mereciam suas duas horas de concentração. Até bobagens e/ou filmes de atores ganharam espaço na agenda.

Hoje, me interesso mais pela produção de TV - prefiro perder meu tempo descobrindo coisas como "Life on Mars" e "Breaking bad" - e documentários. O cinema não me faz sair de casa com a mesma frequência, apesar de o ritual ser um dos meus preferidos.

Então, voltei para casa e fui fuçar as minhas prateleiras, para pescar o filme da noite. Escolho "Fuga de Alcatraz", já visto em várias madrugadas televisivas, quando a programação de filmes na TV aberta era infinitamente superior à de hoje.

É um Don Siegel com cara de Clint Eastwood, hoje meu diretor preferido, a quem sigo religiosamente. Seus trabalho como ator possui características muito próximas aos filmes que dirigiu - "Na linha de fogo", por exemplo, em que interpreta um agente do FBI dedicado a proteger o presidente dos EUA, está na linha de "Gran Torino", apesar de dirigido por Wofgang Peterson.
"Alcatraz" seria inconcebível hoje. Só vamos ouvir a primeira fala com mais de 5 minutos de filme. Se fosse um filme de Tarantino ou Michael Bay, algumas explosões e mortes já teriam surgido na tela. Com Siegel - e Eastwood -, o tempo é outro.

A ação é reduzida, a reproduzir o tempo de quem vive na prisão. A paciência e o tédio de um prisioneiro são representados por uma câmera que acompanha os passos, fixa o olhar nos personagens.

Nada a ver com a correria do cinema atual - com raras exceções. Esse cinema permite uma entrega difícil de encontrar nas telas de hoje. Afinal, um filme de presídio com apenas um soco soa como sacrilégio para produtores e público.

Eastwood oferece essa contemplação. Seu tema, o indivíduo deslocado do seu meio, ajuda esse cinema a refletir. O espectador caminha nesse rumo.

Ao final de "Alcatraz", chuva ainda ecoando lá fora, penso naquele espectador que ia quatro, cinco vezes por semana ao cinema para assistir "Os intocáveis" e "Coração Satânico", que desbravava Wim Wenders, Billy Wilder, Woody Allen, John Ford e John Huston em fitas de vídeo e sessões na madrugada, que percorreu a filmografia de Coppola e Scorsese. Aquela avidez hoje se tornou algo seletivo.

Como uma Alcatraz, os filmes passam agora em marcha lenta, buscando um lugar na memória onde possam permanecer e não mais serem descartados - como muitos ao longo de um tempo. As descobertas são menores hoje do que há 20 anos. Eastwood me faz enxergar.

16/10/09

Hang the DJ


"Adios Nonino", Astor Piazzolla, para celebrar o alívio portenho e a ida à Copa-10. Ainda que Maradona tenha encarnado um misto de Dunga+Zagallo em suas declarações, não há como negar que o sofrimento foi emocionante.

14/10/09

Tempo

"Nada passa, tudo é presente, ao passo que o tempo nunca é presente."

"Dominais todo o futuro porque ainda está por vir. Quando ele chegar, já será pretérito (...) O vosso 'hoje' é a eternidade."

"O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei (...) De modo que existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presentem se fosse presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa de sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente existe, porque tende a não ser?"

("Confissões", Santo Agostinho)

Fome de viver

À primeira vista, pode dar a sensação de "mais um", afinal, a onda de vampiros e congêneres ganhou força razoável com a série "Crepúsculo". Antes, muito antes, houve a onda de Anne Rice e seu Lestat, quase simultâneos ao "Drácula" de Coppola.

Mas essa primeira impressão se esvai com a sinopse e some por completo ao final da exibição de "Deixe ela entrar". Nada de apelos "teens", nada de terrores, apenas uma fábula romântica que perpassa mitos e histórias de vampiros, sem tê-los como foco.

Oskar é o típico garoto maltratado na escola, vítima do seu porte frágil, dado a leituras e um tanto andrógino. Apanha, sofre humilhações e só encontro conforto em casa, sozinho no seu quarto, a encarnar um Travis Bickle criança, mais delicado, a enfrentar árvores e a janela de seu quarto - a referência é à antológica cena de Robert de Niro em "Taxi Driver", quando, ao espelho, ele ensaia "Você está falando comigo?", em tom agressivo. Oskar ameaça com uma faca uma árvore e pergunta: "Você vai gritar?".

Com seus 11, 12 anos, de pais separados, vivendo numa gélida Estocolmo dos anos 70, Oskar vai encontrar em Eli um aventura, apoiado na impressão arredia que a garota, recém-chegada ao condomínio, deixa cravada no primeiro encontro. "Não podemos ser amigos."
O filme tem diálogos curtos, intercalados com longos silêncios e emoldurados na brancura da neve que toma conta das locações. Brancura que passa a sensação de pureza, pois em nenhum momento vemos o sangue encharcar a neve, apenas os lábios da pequena vampira, que vai ganhando a confiança de Oskar aos poucos.

Daquela garota arredia, que há muito tempo tem 12 anos, surge uma Eli carente, criança, dependente, ainda que matadora, pois depende de sangue para se alimentar. E essa carência encontra um porto seguro no improvável, pois Oskar mostra uma força até então inédita para sobreviver ao lado de Eli.

Sensível, o filme explora o tema vampiro de forma única, sem aberrações, sustos fáceis, escatologia, dentes afiados - a mitologia é mais uma desculpa para contar uma história do que seu fim. As cenas que mais chocam, como as dos escalpos, não são explícitas e apenas sugerem. Mesmo os poucos ataques de Eli só impressionam pela avidez, tipicamente infantil diante de uma fome incontrolável.

É um filme de um amor ingênuo, mas que encontra nas diferenças e fraquezas um jeito de existir e sobreviver.

Como o filme que dá título ao post, com David Bowie, Susan Sarandon e Catherine Deneuve.

13/10/09

Saiu da cabeceira

Há uns oito anos, ultrapassei com dificuldade "Extinção", livro de Thomas Bernhard. Novas traduções foram lançadas, de romances essenciais da biografia do escritor austríaco, mas não me entusiasmei, talvez com a lembrança daquela leitura doída.

Numa das minhas caminhadas por uma livraria, encontrei "O imitador de vozes", recém-lançado. Resolvi encará-lo. E me encontrei com um texto vertiginoso, de poucas páginas (160), mas de uma força incomum.

São capítulos curtos, raramente com mais de uma página. Minto, nem capítulos são, são pequenas histórias, como notícias de jornais, em que destruição, morte, desilusão, desastres, frustrações e ações patéticas se transformam num meio de desvendar a natureza humana.

Bernhard escreve de forma concisa, ainda que elíptica, frases longas, intercadas por longos apostos que incitam outra ideia, uma leitura que obriga o leitor a voltar ao início não raras vezes para recuperar fôlego e meada. Narra com precisão, usando alguns recursos jornalísticos, transformando notícias de jornais em visões sarcásticas do homem.

Ele nos transforma em agentes mesquinhos, insignificantes diante de fatos e acasos. Muitas vezes, solitários. Reais.

Trecho
"O professor Moosprugger contou ter ido à estação ferroviária buscar um colega a quem não conhecia pessoalmente mas apenas mediante troca de correspondência. Esperara, na verdade, encontrar outra pessoa em lugar daquela que desembarcou na estação. Quando chamei a atenção de Moosprugger para o fato de que quem chega é sempre uma pessoa diferente daquela que esperávamos encontrar, ele levantou e foi-se embora com o único propósito de romper e abandonar todos os contatos que já estabelecera da vida."
("O erro de Moosprugger")

09/10/09

Hang the DJ


"A day in the life", Beatles, mais um só, inevitável nesta passagem por seus CDs estalando de novos...

08/10/09

Espanto e perplexidade

Um artista nunca visto como agora no Brasil, Henri Matisse está presente em cerca de 80 obras na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. O pintor francês, defensor do decorativo na obra de arte dizia: “Não pinto as coisas, pinto apenas as diferenças entre as coisas”.

Das obras presentes na Pinacoteca, estão “Natureza Morta com Magnólia”, “O Torso de Gesso”, “Odalisca com Calça Vermelha” e os painéis e pranchas criados para o livro “Jazz”.
Sônia Salsztein, organizadora do livro de ensaios “Matisse: Imaginação, Erotismo, Visão Decorativa”, fala sobre a exposição e a obra do artista.

Que Matisse é esse que está na Pinacoteca?
O Matisse que está na Pinacoteca é simplesmente aquele que assinala a primeira exposição relevante do artista no Brasil. Que essa exposição não nos dê uma visão mais generosa e acurada da totalidade da obra e que não seja tão seletiva conforme desejaríamos - isso é outra história. É, de todo modo, admirável que o público brasileiro tenha, finalmente, a oportunidade de contato com um conjunto significativo de obras do pintor, e temos de saudar essa oportunidade. Além disso, há muito ali com o que se "deleitar", para usar um termo matissiano - esse "deleitar" não devendo, de modo algum, privar-nos do espanto e da perplexidade, da dúvida que toda obra moderna essencialmente formula. Não esqueçamos, a propósito, que as arcádias matissianas foram vislumbradas numa época precisamente de espanto e perplexidade, defrontada a dois conflitos mundiais de proporções catastróficas.

Tiago Mesquita escreveu: "Devido ao seu talento e longevidade, comenta-se no debate especializado que ainda não existe uma interpretação que dê conta da complexidade e variedade dessa obra". Como a senhora avalia essa declaração, como estudiosa de Matisse?
Sobre ainda não existir uma "interpretação que dê conta da complexidade e variedade dessa obra", eu lhe responderia que o que me preocupa é menos a expectativa de que finalmente tenhamos uma interpretação que venha a dar conta da complexidade e variedade dessa obra - uma tarefa que talvez nunca possamos cumprir totalmente - do que a possibilidade de nos sentirmos plenamente à vontade para perguntarmos, com gravidade e empenho absolutos, o que quer que seja sobre essa obra. Acho que mais atraente e produtivo do que lamentar as eventuais lacunas na fortuna crítica da obra seria nos sentirmos como se não tivéssemos nas costas a tradição e a autoridade de toda a vasta literatura que já se produziu sobre Matisse. Sentirmo-nos como se pudéssemos, ainda que apenas por um instante vertiginoso e hipotético, supor que não fosse óbvia a relevância dessa obra. Aí, sim, talvez pudessémos ousar pensar que há sempre perguntas novas e surpreendentes a serem dirigidas a ela, que não é descabido avançar a discussão mesmo ciosos que possamos nos demonstrar em face da autoridade da literatura que já se estabeleceu sobre Matisse.

E quais seriam outras questões a serem levantadas?
Muito se falou, por exemplo - e não sem um punhado de reserva no que concerne ao "retrocesso" que ele pressuporia -, do "naturalismo" do período nicense do pintor, quando, nos anos 1920, ele fixou seu formidável repertório de odaliscas. Entretanto, há nessas telas uma tensão máxima (que é ostensivamente declarada pelo pintor), entre os recursos de volumetria com que ele trata a figura e a disposição rigorosamente plana que dá ao entorno dessas figuras, entorno cifrado em exuberantes padrões decorativos. Ora, é evidente que nesse período Matisse está divisando novos problemas, novos desafios. Poucos autores, até onde eu saiba, trataram dessa questão, que pareceria dada por encerrada, a crer na tradição interpretativa legada por autores cruciais, como Alfred Barr e Clement Greenberg, por exemplo. Só muito recentemente a crítica tem se lançado a essa revisão, e, especificamente no que concerne às odaliscas do período de Nice, Yve-Alain Bois fez um trabalho admirável. Creio que é mais do que urgente indagarmos noções consagradas sobre a obra do artista, como as interpretações que nos descrevem ora um pintor imerso em hedonismo, ora um pintor atribulado pela busca da "pureza" dos meios pictóricos.

"O torso de gesso" (1919)

A senhora cita no seu texto "Uma pintura de interiores" uma frase de Matisse, em que ele se percebia "numa época em que o cinema, a publicidade e as grandes lojas nos impõem diariamente um fluxo de imagens prontas, que, em certa medida, são para a visão aquilo que o preconceito é para a inteligência". Como a obra de Matisse se relaciona com esse fluxo de imagens, hoje muito mais amplo e veloz?
Creio que o que conduz Matisse às visões de bem estar e felicidade, que marcam de modo tão notável sua pintura pelo menos desde "Luxo, calma e volúpia" (1904), é, paradoxalmente, um sentimento pessimista em face de seu próprio tempo. É de uma insensibildade atroz descrever (como fez uma parte da crítica contemporânea de Matisse) essas imagens como provas do "escapismo" ou do "conservadorismo" do pintor. As imagens de uma felicidade primordial que nos dá sua obra nada têm de nostalgia do passado, não descrevem uma visão que recusa os dilemas de seu tempo - justo ao contrário, testemunham uma imaginação do impossível, uma imaginação que não cessa de nos lembrar de que tudo conspira contra ela, de sua lancinante impossibilidade.
"Nu roses assis" (1936)

* Texto escrito para o jornal "O Tempo", publicado em 4/10. A entrevista neste post está na íntegra

07/10/09

Solidão online

“A vida é evolução. Todos nós temos o direito de mudar, de nos contradizer, de fazer quantas viagens ideológicas quisermos e de defender, em qualquer momento, o nosso modo de pensar e agir. A diferença é que essa evolução, até agora, era um périplo interior. Um trajeto que, às vezes, compartilhávamos com outras pessoas. Companheiros de aventuras que o acaso da travessia obrigava a nos separar em diferentes estações, em função do destino escolhido por cada um. Agora, Facebook, Twitter, Tuenti e outras redes sociais estão convertendo este desenvolvimento pessoal em um cruzeiro de massas”.

Pesquei esse trecho de um post do blog do Maurício Stycer, "A hipermnésia e o Facebook". Quem assina o texto acima é a escritora Emma Riverola, no "El País".

Hoje, somos um tanto "obrigados" a pertencer a alguma rede social na internet. Redes que acabam com o pouco de privacidade que temos. Celular, mensageiros instantâneos, blogs, emails, tudo isso acelerou a comunicação e os "contatos", com colegas de trabalho, pessoas próximas e as também nem tão próximas - e a eles somam-se as redes sociais que se tornaram mania, além da que são segmentadas, como a Linkedin, voltada para o profissional.

Tudo é medido na base de "amigos", pessoas que são "adicionadas" nos perfis, pessoas que em muitos casos nem conhecem o dono da página. "Seus amigos podem compartilhar suas listas", "mande mensagens para seus amigos", "seus amigos podem ver as fotos e comentar", "envie os vídeos apenas para seus amigos", esse povo tem muito amigo...

Algumas ferramentas são obrigatórias hoje para trabalho, que se modificou ao longo do tempo. Além delas, só me permito o blog, mais uma diversão do que exatamente uma ferramenta de contato. Tive orkut por alguns meses, mas fechei o perfil depois que percebi que não sabia o que estava fazendo lá.

Jerry Seinfeld conta uma piada num dos episódios do seu seriado que é um tanto premonitória - afinal, ela relata o cotidiano dos anos 90, longe dessa parafernália digital que existe hoje. Diz ele, mais ou menos assim: "Hoje, temos telefone em casa, secretária eletrônica, serviço de recado, bip, telefone no carro, secretária eletrônica do carro, celular, caixa postal... É preciso dar um tempo para que as pessoas sintam falta de você".

O texto de Rivarola é certeiro e merece a leitura (o link segue aqui, o texto está em espanhol). Mais um trecho: "Hoje há uma necessidade, uma obrigação de ser visível. Somos a imagem que reflete nos olhos dos demais. E nessa obsessão por compartilhar a existência se esconde uma forma de reafirmar a identidade, de reclamar um lugar no grupo e lançar ao ar um 'aqui estou!', 'conta comigo'".

Mais. Pesquisa recente do Ibope, divulgada na terça, informa que um terço dos adolescentes brasileiros prefere falar online a manter algum tipo de contato pessoal.

Tenho a sensação de que estamos mais solitários.

Outro olhar

A seguir, a íntegra da entrevista com o fotógrafo brasileiro Cristiano Mascaro, presente na mostra "Bressonianas". No texto escrito sobre a exposição de Cartier-Bresson, publicado no post anterior, saíram apenas alguns trechos da entrevista.

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Hoje, o ato de fotografar é dos mais comuns, por conta de câmeras em celulares e das máquinas digitais a preços acessíveis. A internet funciona como caminho para a exposição de tudo quanto é tipo de fotografia. Como a simplicidade de Cartier-Bresson se insere nesse contexto?
Como disse (o escultor romeno Constantin Brancusi), “simplicidade em arte é a complexidade resolvida”. Portanto, não podemos concluir que a simplicidade do trabalho desse grande mestre não tenha surgido de uma realidade complexa. E o grande equívoco que perdura há muito tempo é imaginar que o acesso a uma câmera fotográfica imediatamente dá a seu portador a capacidade de criar imagens significativas. Dessa forma, não podemos confundir as coisas. Uma, é o acesso universal a câmeras digitais e celulares, o que significa um avanço tecnológico espantoso. Outra, é a capacidade de “saber ver” e “ter algo a dizer”. Mas estou consciente de que, de alguma forma, essa revolução tecnológica vai criar novas regras e/ou possibilidades no universo da fotografia. Quando a fotografia surgiu no século 19, definiram, precipitadamente, que a pintura estava morta. Mas aconteceu exatamente o contrário. A pintura se libertou do figurativismo e partiu para voos mais ousados, que a levaram ao impressionismo e à abstração. Imagino que algo parecido possa acontecer agora com a fotografia.

Dos trabalhos de Cartier-Bresson (retratos, jornalismo, paisagens), qual o influenciou mais profundamente? E por que?
Nessas três categorias, todas as fotografias de Cartier-Bresson me impressionam pela razão de ele transformar um fato cotidiano ou opaco em imagens comoventes. Algo como iluminar as aparências das coisas.

Qual a importância da exposição para a arte fotográfica?
A importância de uma exposição como essa reside no fato, apesar das novas correntes e tendências que atualmente seduzem muitos fotógrafos, de que, fundamentalmente, a característica principal da fotografia, repito, “é saber ver”.
Cristiano Mascaro

Como as Bressonianas dialogam com a mostra de Bresson?
Os fotógrafos de minha geração foram fortemente influenciados pelas fotografias do pós-guerra e pelas imagens dos fotógrafos da agência Magnum. Isso não significa que estamos até hoje produzindo como tal. O interessante é observar as marcas que essa influência deixou, principalmente nas questões éticas e na postura de respeito pelo que está sendo observado. Como disse recentemente (o fotógrafo francês) Elliott Erwitt, “fotografia é o que está ali, não o que você inventa. Isso vale se você quer vender sucrilhos ou um automóvel. O que é especial em fotografia é que é real, não que você fabricou algo”.

Bresson escreveu que fotografar “é um modo de viver”. Para o senhor, o que é fotografar? E como o senhor interpreta essa frase de Bresson diante do trabalho dele?
De fato, desconfio de que não há fotógrafo que não seja apaixonado pelo que faz. Essa paixão é decisiva e essencial em fotografia. Não imagino um pintor desenvolver afeto pelos seus pincéis e tintas como os fotógrafos desenvolvem pelas suas câmeras. Sair pelas ruas fotografando o que se passa à sua frente é uma grande aventura que, certamente, caracteriza um modo de vida. Quanto a Cartier-Bresson, não há dúvidas de que ele fez da fotografia não só um modo de vida, mas também deu vida à fotografia. Confesso que achei uma certa “traição” ele tê-la abandonado pelo desenho.
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Algumas bressonianas

Flávio Damn

Tuca Vieira

Carlos Moreira

Marcelo Buainain

Orlando Azevedo

O olhar

Ao entrar, o visitante vê a fotografia clicada no México, em 1964. Um garoto correndo, no exato momento em que seus pés estão no ar, em frente a uma relojoaria. Um flagrante simples, que revela na leitura muito mais do que o cotidiano de uma cidade mexicana.

Essa é a primeira das 133 fotos que compõem a exposição dedicada a Henri Cartier-Bresson (1908-2004), fotógrafo francês decisivo para o século 20. Parte do roteiro do Ano da França no Brasil, a mostra está em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Cartier-Bresson deu significados à fotografia. Criador da agência Magnum, em 1947, ícone dos fotógrafos independentes, ao lado de outro nome fundamental da arte e do jornalismo, Robert Capa, Cartier-Bresson reproduziu em instantes sensações que naquela época eram inéditas. Partículas do cotidiano, registradas no “momento decisivo”, nome de um de seus livros.

Seu trabalho como fotógrafo profissional começou em 1931, após uma viagem à África e sob influência dos surrealistas. Começava a construir uma obra de caráter humanista e com certo tom de fotodocumentário. Transformou a Leica, máquina fotográfica de origem alemã, em marca maior da arte.

Lapidou frases que se tornaram uma espécie de aforismos, como “Fotografar é por numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”. Retratou escritores como William Faulkner, Ezra Pound, Truman Capote e Jean Paul Sartre e flagrou Matisse em uma série de imagens que traduziam o cotidiano de trabalho do pintor francês. Foi à Índia para assistir ao funeral de Gandhi. Fotografou os últimos eunucos chineses. Flagrou crianças brincando, senhoras deixando igrejas, pessoas caminhando. Coisas simples, todas presentes na exposição.

Simiane-la-Rotonde, France - Photograph copyright © 1969 by Henri Cartier-Bresson

“Como disse (o escultor romeno Constantin) Brancusi, ‘simplicidade em arte é a complexidade resolvida’. Portanto, não podemos concluir que a simplicidade do trabalho desse grande mestre não tenha surgido de uma realidade complexa”, diz Cristiano Mascaro, fotógrafo brasileiro, influenciado pelo trabalho de Cartier-Bresson. “As fotografias de Cartier -Bresson me impressionam pela razão de ele transformar um fato cotidiano ou opaco em imagens comoventes. Algo como iluminar as aparências das coisas.”

Mascaro está presente nas “Bressonianas”, exposição que acontece no mesmo Sesc Pinheiros com 42 trabalhos de fotógrafos brasileiros que têm o mestre francês como guia.

Para completar a revisitação ao trabalho do artista francês, as editoras Cosac Naify e Sesc-SP estão lançando o livro “Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo”, reunião de 155 fotos organizadas pelo próprio autor. Augusto Massi, editor da obra e diretor-presidente da Cosac, tenta explicar o fascínio que a obra do artista exerce. “Cartier-Bresson, se quisesse, poderia ser cineasta (fez belos documentários e trabalhou com Jean Renoir) ou pintor (dedicou-se à pintura no fim da vida). Mas, ao escolher a fotografia, soube desentranhar dessas outras artes um apurado sentido de composição, um sutil senso da geometria, um olhar armado para captar e libertar as formas. Melhor: porque não usar suas próprias palavras para definir o ‘fascínio’ que sentiu diante de uma fotografia do húngaro Martin Munkacsi: ‘De repente entendi que a fotografia podia fixar a eternidade no instante’”, diz Massi, autor do texto da contracapa do livro, originalmente lançado em 1979.

No texto presente no livro, Massi diz que Cartier-Bresson pertence à linhagem de artistas como Montaigne, pensador francês do século 16: “Montaigne escreve sem retórica e de forma despojada. Além de grande observador, passa do mais prosaico à reflexão mais funda. Nos ‘Ensaios’, quanto mais parece falar de si, mais reflete sobre a condição humana. Cartier-Bresson também me parece tender ao ensaio, com ele a fotografia desliza do mero registro para a mais modulada meditação”.
Puebla, Mexico - Photograph copyright © 1964 by Henri Cartier-Bresson

* Texto escrito para o jornal "O Tempo", publicado em 4/10

06/10/09

A história desde 1955

A World Press Photo colocou na rede seu arquivo de imagens premiadas desde 1955. Uma coleção preciosa do que de melhor o fotojornalismo produziu em mais de 50 anos. Vale fuçar e perder algum tempo por lá.

Esta é de uma mãe sul-coreana chorando diante de policiais por causa da prisão de seu filho nos protestos pós-eleitorais de 1987.

Anthony Suau/Black Star

Saiu da cabeceira

Quando escrevi o post sobre revistas de viagens, o companheiro PH indicou a leitura de "O grande bazar ferroviário", de Paul Theroux. Era um livro que cheguei a pegar, mas larguei antes do caixa. Após a dica, fui atrás.

A leitura é deliciosa, o relato, dos mais sensíveis, de um observador atento, de quem gosta de se envolver com viajantes, pessoas de outras culturas, sem preconceito ou ideias preconcebidas.

Theroux narra sua viagem de trem pela Ásia e pela então União Soviética. Envolve-se com variados tipos, em situações que exigem do viajante mais do que boa vontade. Sua prosa é límpida, sem excessos, quase uma conversa com o leitor.

Me lembrou minha bíblia de viagem, "As vozes de Marrakech", de Elias Canetti. Assim como Canetti, Theroux vai de cabeça aberta, busca se misturar e participar do modo de viver estrangeiro - ainda que isso signifique alguns riscos. Nos trechos de reflexão, arranca memórias, lembranças, equilibra-se entre a melancolia, levemente doce, do seu passado, e a sua realidade.

Depois desse relato, me interessei por Theroux. Voltarei a ele em breve.

Trechos
"Dediquei meu primeiro dia na cidade a passear obsessivamente, como um homem que de repende se vê libertado da clausura de um longo cativeiro. O único defeiro de um trem, para alguém como eu, é a impossibilidade de caminhar. À medida que transcorriam os dias, reduzi meu ritmo, e munido do guia Nagel da Turquia, comecei a fazer turismo, atividade deliciosa para o verdadeiro ocioso por ter um toque de erudição, completando-se antiguidades com a ilusão de se estar descobrindo o passado, quando, na realidade, inventa-se um, usando guias de turismo para fazer anotações rápidas."

"A franqueza da conversa, como de muitas outras que tive nos trens, devia-se à viagem compartilhada, à comodidade do vagão-restaurante e à certeza de que jamais nos reencontraríamos. As ferrovias são um mercado persa para os romancistas, um bazar, onde qualquer pessoa paciente teria uma recordação para saborear mais tarde sozinha. As lembranças eram sempre inconclusivas, mas, como nos bons romances, sempre tinham um final."

"Parecia que eu havia estado em Cingapura muito tempo atrás, quando eu era jovem e não sabia nada, e ao estar ali pela segunda vez, depois de uma ausência de dois anos, tive um vislumbre dessa outra pessoa. É possível, a distância, manter a ficção da antiga felicidade - na infância, ou na época da escola -, mas aí você volta ao mesmo cenário e os anos desaparecem e você vê o quão amargamente infeliz era no passado."