05/12/09

O fascínio de Clarice

Abaixo, publico a íntegra da entrevista que fiz com o norte-americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, que veio ao Brasil para lançar "Clarice,". No jornal "O Tempo", a entrevista saiu reduzida. Aqui, segue completa.

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Elogiado pelo jornal “The New York Times” e pela revista “The Economist”. Livro do mês na Amazon.com. Duas reimpressões nos Estados Unidos. Benjamin Moser tinha receio de como a crítica e o público iriam receber a biografia de Clarice Lispector (1920-1977), mas o resultado, de imediato, amainou seus temores.

“Why This World” chega agora ao Brasil com o título “Clarice,”, em edição da CosacNaify e tradução de José Geraldo Couto. A vírgula do título faz referência a “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, que começa com o sinal de pontuação.

Moser, historiador e crítico literário, foi aprender português quando se deparou com “A Hora da Estrela” na universidade. Mergulhou no universo de Clarice até se resolver a preparar a biografia. Foram cinco anos de pesquisa, inúmeras viagens ao Brasil da escritora – do Recife ao Leme, no Rio de Janeiro – e desembarques por todo o mundo, da Ucrânia natal às cidades onde Clarice viveu acompanhando o marido diplomata.

O biógrafo é detalhista. Das 648 páginas, a bibiografia ocupa 11 e as notas explicativas se estendem por quase 60. O envolvimento é perceptível durante o avanço da narrativa, que reflete não só a dedicação como também a paixão pela obra de Clarice e por sua personalidade. “Fiquei sabendo tanta coisa (de Clarice), minha admiração ficou mais intensa. Não havia risco de não gostar”, diz o norte-americano, fluente em seis línguas, português entre elas.

Moser conversou com "O Tempo" num sábado, na piscina de seu hotel em Higienópolis (zona oeste de São Paulo). Era o final da primeira semana da turnê brasileira de lançamento do livro, que continuaria por mais sete dias, em viagens para o Recife e Rio de Janeiro. Confira a seguir a entrevista.

Após cinco anos de pesquisa, qual a sensação de publicar o livro? Imagino que deva ser similar a um parto...
Não, pois no parto você não sabe como vai ficar a criança. Existe sempre a dúvida. Não sabe se ela vai ser saudável, inteligente, vai ter namorada, se vai ter dinheiro. O livro já nasce adulto. Nos Estados Unidos e na Europa e as resenhas foram muito boas. Não tenho mais essa angústia. Na primeira vez, você não sabe como as pessoas vão reagir. Eu não sabia como as pessoas iriam reagir no Brasil, porque eu não sou daqui. Existia aquela tensão: “Será que as pessoas vão achar que eu estou mexendo com uma coisa delas?”. Mas ninguém reagiu até agora, está tudo bem. Fiz essa biografia para fora. Aqui, a Clarice não precisa de mim. Lá fora, ela precisa de alguém que faça a divulgação. Mas ainda bem que as pessoas estão gostando.

Você esperava essa reação do público, esse interesse do Brasil por esta biografia?
Não sei. Esperava um interesse pela Clarice, porque é uma coisa inesgotável. Cada vez que eu entro em uma livraria fico espantado com a quantidade de coisas publicadas sobre ela. Parece que não vai parar mais. Há um fascínio por ela, um tipo de amor que as pessoas têm.

Qual é sua relação com a obra de Clarice agora?
O desafio é manter a distância. Já parei de ler a Clarice, li tudo durante anos, mas falar dela é outra coisa. Essa intimidade que agora tenho com ela é uma experiência tão forte... As pessoas me perguntam se eu vou fazer outra biografia e eu acho que não, porque a Clarice é tão forte que eu não sei se o próximo biografado vai ser tão interessante. Uma biografia dá um trabalho enorme, uma pesquisa intensa, uma intimidade muito grande.

Como você vê a Clarice antes e depois do seu trabalho?
A Clarice tem uma coisa muito interessante: você começa não sabendo muita coisa sobre ela. Em um primeiro instante, você pode gostar de uma pessoa, mas depois vai descobrindo mais coisas e pode gostar menos. Com ela não foi assim. Fiquei sabendo tanta coisa, mas o que mudou para mim foi que a minha admiração ficou mais intensa. Não havia risco de não gostar. Clarice foi um prazer, mas com um lado espantoso. Um lado daquela batalha, aquela coisa forte que ela tem. Tem dia que você quer ficar mais sossegado, mas da Clarice não dava para ter uma vida cotidiana normal. Durante o processo, você não pode fazer muitas outras coisas, é difícil desligar. Tudo o que eu fazia era com ela na cabeça. É muito gostoso.

Você percebeu um interesse por ela durante as entrevistas em sua pesquisa?
Eu senti o apelo da Clarice, ainda. Ela chama a gente a uma vida mais séria, a uma vida mais profunda, mais clínica no sentido moral e espiritual. Há um desafio moral que ela lança para as pessoas. É uma pureza que ela tem, que reflete na obra. Para os escritores, é muito inspirador, porque dá uma idéia do que pode ser a nossa profissão, o que deveria ser em seus momentos melhores.

Você mergulhou de uma forma intensa na vida dela, percorreu seus passos pelo Brasil e mundo. Como foi essa experiência?
Foi fascinante. Eu já conhecia o Brasil, mas é um país muito grande. Você pode conhecer alguma coisa, mas nunca tudo. Então é bom pegar um assunto grande como ela na cultura brasileira para ficar conhecendo mais o país. Porque não é só ela que você fica conhecendo, mas também a literatura brasileira daquela época, a história dos judeus no país, como o imigrante viveu, como o Itamaraty funcionava. Foi uma aventura.
Ela, ao mesmo tempo em que se expõe, como se estivesse fazendo uma cirurgia nela mesma, também tem um olhar cosmopolita...
É por isso que o assunto é muito fascinante. Porque, de um lado, ela fazia tantas viagens ao exterior, mas a mais interessante é a viagem ao interior dela mesma que ela fez. Em geral, na nossa vida, nós não temos coragem de fazer essa viagem tão profunda como ela fez.

Na exposição dedicada a ela, em 2007, no Museu da Língua Portuguesa, havia um gaveteiro com algumas gavetas abertas e outras fechadas. Clarice permite essa analogia, de ter a vida em uma gaveta e somente algumas abertas?
O mais interessante naquela exposição foi justamente a vontade de as pessoas abrirem as gavetas e não conseguirem. É um símbolo perfeito. Tem certas gavetas que se abrem, principalmente como em uma pesquisa como esta que eu fiz. Consegui abrir muitas, porque a Clarice tinha uma vida pessoal muito vinculada à obra dela. Eu fui abrindo e fechando essas gavetas e descobrindo cada vez mais coisas. Não se chega ao fim de Clarice. O livro tem quase 700 páginas, mas poderia ter colocado mais 600 páginas com outras citações dela. É inesgotável e é muito gostoso não se chegar ao fim.

No título, você utiliza o recurso da vírgula, que aparece na abertura de “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. O original é “Why This World” (por que este mundo). Por que a opção por um título diferente e não a tradução literal?
Porque “Why This World” em inglês é lindo, mas “Por Que Este Mundo” não tem esse mesmo som de três sílabas. É um som diferente. Achei mais elegante. O livro não é Clarice e ponto final, é uma coisa aberta. Nunca pretendi falar a última coisa sobre Clarice. Ninguém vai falar. A minha bibliografia é enorme e é uma parte pequena parte do que existe sobre ela. Ainda bem, porque é um assunto inesgotável.

Em algum momento você teve a sensação de frustração de não poder entrevistar a Clarice?
É interessante, porque estive em uma feira de livros em Miami com o biógrafo do Gabriel García Márquez. Ele pode conversar a respeito de fatos da vida dele com o próprio Gabo, mesmo por e-mail pode tirar as dúvidas. Eu não tive esse acesso. O García Márquez ajudou muito, mas também não gostou de tudo. O ideal é que o biógrafo possa manter a liberdade. Eu pude manter a minha. A família da Clarice ajudou, não tive problemas nesse sentido. Às vezes, senti vontade de falar com ela, em outras vezes, não.

Você gostaria que ela pudesse ter lido o livro?
Não sei se ela gostaria de ler tudo, porque tem muita intimidade. Mas eu gostaria, para poder ter um diálogo com ela. Teria amado ter conhecido a Clarice. Nem todo mundo gostava dela, nem todo mundo queria ter intimidade com ela, porque ela era uma pessoa forte, impressionante, que ficou mais difícil, sobretudo mais no fim da vida. Mas ninguém a esqueceu. Era uma figura fisicamente e energeticamente impressionante. Fiz essa coisa com grande seriedade e muito respeito e amor por ela. Acho que ela teria sentido isso.

Em “Água Viva” ela escreve para Deus: “Vou ficar muito alegre, viu?”. Ela chegou a encontrar essa felicidade?
A Olga Borelli, que foi a grande amiga íntima dela, que dividiu momentos importantes e dava auxílio à Clarice quando ela já estava fisicamente fraca, falou que ela sente isso em “Água Viva”. Há momentos em que você sente a felicidade dela, a solidão, depois a depressão, a alegria, a busca mística. É um milagre da poesia dela, de colocar tanto sentido e tanta emoção em uma coisa pequena. Por isso que eu acho que essas coisas só chegam mesmo no fim da vida do artista, quando se chega ao âmago.
* Thanks, Lily...

• Mais Clarice no VERBO TRANSITIVO
Entrevista com Júlia Peregrino, curadora da exposição "Clarice Lispector - A Hora da Estrela"
Entrevista com Teresa Montero, biógrafa de Clarice Lispector

04/12/09

Hang the DJ

Ceremony by New Order

"Ceremony", New Order.

"Heaven knows, it's got to be this time..."

01/12/09

Ponto zero

Em meados dos anos 80, a aids infernizou a vida de quem começava a vida sexual. Tempos confusos, de explicações contraditórias e muito preconceito. Eu vivi essa época e me lembro de forma rarefeita como era ter 15, 16 anos e viver com essa carga. Sexo se tornara então um desafio.

"E a vida continua" é, provavelmente, o melhor filme já feito sobre a aids. Dirigido por Roger Spottiswood, é uma ficção encenada com tons de documentário, baseada na história da descoberta do vírus da aids - o grande mote é procura pelo paciente zero.

É um belíssimo filme, que trata de forma digna dos preconceitos vividos em São Francisco, por exemplo, como também da disputa de egos na ciência. É emocionante sem deixar de lado a razão, um equilíbrio raro de se encontrar.

O filme acabou de chegar em DVD - antes, só havia sido lançado em VHS para locação. Foi inspirado no livro "And the band played on", do jornalista americano Randy Shilts. Neste 1º de dezembro, dia mundial de combate à aids, este "E a vida continua" não apenas faz lembrar como tudo começou, mas promove também uma viagem a um período de incertezas, em que o mundo era mais ingênuo, talvez igualmente preconceituoso.

30/11/09

Andar com fé 2

Mais Andar com fé

29/11/09

Mas louco é quem me diz...

"- Mas eu não quero ir parar no meio de gente maluca - observou Alice.
- Ah, não adianta nada você querer ou não - disse o Gato. - Nós somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca.
- E como você sabe que eu sou louca? - perguntou Alice.
- Bem, deve ser - disse o Gato - ou então você não teria vindo parar aqui."

Este é um trecho de uma nova tradução de "Alice no país das maravilhas", feita por Nicolau Sevcenko. O livro de Lewis Carroll sai em caprichada edição da Cosac.

Estou relendo após uns cinco anos de minha última passagem pelo livro, quando tive em mãos a tradução comentada de Maria Luiza X. de A. Borges, numa bela edição da Jorge Zahar.

Em breve, volto a falar desta nova "Alice".

27/11/09

Hang the DJ


No horário do show, provavelmente estarei sobrevoando São Paulo. Um rock despretensioso, bem feito, que faz soltar um sorriso nos primeiros acordes de canções como "The Jack", "For those about to rock (we salute you)", "Back in black".

Esta, "You shook me all night long", já apareceu por aqui. Mas não tem como celebrar o show do AC/DC, hoje, no Morumbi, sem essa canção. Para espantar preocupações e problemas de quaisquer níveis e imaginar. Sem firulas.

25/11/09

Andar com fé

Sou pedestre por opção. Mas andar por SP fica cada vez mais difícil. As calçadas já não aguentam a falta de manutenção. Prestadores de serviço para o governo não respeitam o espaço público (a empresa que trabalha para o metrô simplesmente eliminou a calçada, sem deixar espaço ou garantir a segurança do pedestre).

Em outros casos, o motorista assume uma posição de ser superior que o garante acima de qualquer lei. "Tenho carro, estaciono onde e como quiser." A arrogância contamina lojas e os manobristas, que ocupam as calçadas, espaço público bem entendido, para garantir a "segurança" dos clientes e seu bem estar.

Quem caminha por SP enfrenta situações absurdas. Fotografei com o celular quatro situações. É um protesto inglório, mas os exemplos são inúmeros que seria injusto deixá-los acomodados em sua quietude.




24/11/09

Minha ideia de felicidade 14

Uma árvore de Natal.

23/11/09

Sertão colorido

Assim começa: “É tão forte o silêncio do sertão...”. E vai terminar com uma citação de “Grande Sertões: Veredas”, de João Guimarães Rosa: “Sertão: é dentro da gente”. No recheio, um sertão escuro, de seres com contornos coloridos, lúdicos, em que uma poesia vai transpassando como a dar vozes aos bichos que habitam o agreste.

“Noite de Sertão”, segundo livro de Cynthia Cruttenden, busca transportar a atmosfera da zona seca para o universo sonhador das crianças. “É como se simbolizasse algo que eu levo dentro de mim, uma essência que está ligada a uma poética”, diz a autora, para explicar a escolha da epígrafe do livro, que tem a quarta capa assinada pelo escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Na entrevista a seguir, Cynthia, paulista, formada em artes plásticas pela USP, fala de suas inspirações, de noites no sertão e de Guimarães Rosa.

O sertão passa a sensação de ser quase monocromático e muito claro. Como foi transformá-lo em algo escuro e colorido, sob o luar? O sertão dá essa sensação mesmo, do sol, da claridade, mas quando eu vi a foto do homem a cavalo na capa do disco “Música Popular do Nordeste”, da gravadora Marcus Pereira, eu já imaginei algo noturno, talvez porque à noite há um maior mistério, um certo clima de perigo, de coisas estranhas e mágicas que possam acontecer. Em “Noite do Sertão”, os animais aparecem do escuro, coloridos, meio furta-cor.

No livro, você escreve que a inspiração surgiu numa noite passada nos sertões mineiro e baiano. Como foram essas experiências?
Essas viagens sempre foram muito importantes para todo o meu trabalho artístico, são cenas, momentos, sensações que ficam guardadas e vão contribuindo para algumas ideias já existentes. Para mim, estar em certos lugares em que a natureza é tão presente dá uma vontade de ver o que acontece quando não estamos lá. Ficar à espreita esperando algum animal passar é uma forma de, pelo menos, ter a sensação de que isso está acontecendo.
As ilustrações de abertura e fechamento do livro lembram as imagens de TV quando elas saiam do ar nos anos 70/80. Fazem alusão a um episódio que pode ser um sonho, que começa e termina....
É verdade, lembram mesmo! Essa sensação de que é um sonho que começa e termina tem muito a ver. Como uma passagem. O cavaleiro entra e sai de algo meio mágico e inexplicável. Durante a sua corrida, ele pode simplesmente estar se deparando com todos aqueles animais no meio da noite, ou então, transformando-se neles, como se aí começasse um outro estado de consciência. Sempre me interessei por relatos de experiências xamânicas, principalmente indígenas. Pode ser que, para mim, essa seja uma maneira de me aproximar da natureza e de mim mesma também.

Como o sertão entrou na sua vida?

Sou uma paulista que já pensou muitas vezes em morar em outro lugar, no sertão da Bahia, na Chapada da Diamantina, por exemplo. Mas, no final, acabei não indo. Por motivos, práticos, financeiros, por inseguranças... enfim, acho que fazemos o que dá para fazer, somos meio contraditórios mesmo, pode ser que algum dia eu saia da cidade para morar em outro lugar, ou então fique aqui, mas continue a fazer minhas viagens, não sei, só sei que, mesmo aqui, de dentro da minha casa ou de qualquer outro lugar posso ir a outros lugares através das imagens e das palavras e isso já é muito bom.

Você é leitora de Guimarães Rosa? Como chegou a ele?

Uma vez, há alguns anos, não me lembro bem como, caiu nas minhas mãos “Manuelzão e Miguilim” (reunião de novelas lançadas originalmente em “Corpo de Baile”) e me emocionei muito com “Campo Geral” (uma das novelas de “Manuelzão”). Depois fui ler “Meu Tio o Iauaretê” (de “Estas Estórias”), li e reli quando estava trabalhando em “Noite do Sertão”, achei que poderia me ajudar com o livro e realmente foi muito importante, me deu força. Apesar de ter lido bem pouca coisa de Guimarães Rosa, essas duas histórias me marcaram. O que me encanta no universo dele é o seu poder de transcendência.

* Texto escrito para o jornal "O Tempo" e publicado em 20/11

20/11/09

Hang the DJ


Não vejo lá grandes coisas no The Killers, banda considerada uma das melhores dos anos 2000. Mas gosto muito desta "When you were young", aqui em versão ao vivo, é daquelas para te fazem acordar numa manhã sonolenta.

Eles tocam amanhã em São Paulo.

18/11/09

Nana nenê...

Topei à noite com uma propaganda do PSB e com a cara do Paulo Skaff. Não entendi bulhufas. Tudo bem, já faz mais de 20 anos que essa história de ideologias desabou, os nomes são apenas enfeites e bandeiras de universitários anacrônicos.

PCB, DEM, PT, PSDB, tudo história da carochinha, aqui e lá fora. Comunismo? Socialismo?

Agora, o presidente da Fiesp ser filiado ao Partido Socialista Brasileiro, ainda que em tempos cínicos como o atual, é abusar da boa vontade. Será possível chamar o representante máximo do maior parque industrial do país de socialista?

Ainda que o PSB seja representante da verve fisiológica da política (e quem não é?), os termos são contraditórios, não dá, né. Só falta o presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC se filiar ao DEM.

17/11/09

A história dentro das quatro linhas

Em 1989, a seleção brasileira ganhou a Copa América após 40 anos. Naquele mesmo ano, os eleitores puderam escolher o presidente um quarto de século depois do início da ditadura. Mesmo credenciada pelo título, a seleção foi à Copa do Mundo de 1990, na Itália, insegura com o técnico Sebastião Lazaroni. Quando Fernando Collor assumiu, em 15 de março do mesmo 1990, também havia um pé atrás com o então “caçador de marajás”.

O Brasil foi eliminado por um drible de Maradona e, diz a lenda portenha, uma água batizada oferecida aos jogadores brasileiros na beira do gramado durante a partida contra a Argentina. Collor nem deu chance de esperança. Sequestrou a poupança logo após a posse. Durante seu mandato de pouco mais de dois anos, enfrentou denúncias de corrupção até sofrer o impeachment.

Esse é um dos paralelos do livro “O Futebol Explica o Brasil”, do jornalista e historiador Marcos Guterman. Em sua dissertação de mestrado em história, o autor tratou da relação do governo do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) com a Copa de 1970, vencida pelo Brasil, em plena ditadura militar. O livro surge como extensão daquele trabalho.

“Minha pesquisa mostrou que a coisa não foi bem assim (a suposta manipulação do povo), porque a relação do futebol com os brasileiros é muito mais complexa. A partir dessa constatação, eu pensei em estudar toda a história do futebol brasileiro usando como ponto de vista seus efeitos e reflexos na vida nacional”, diz Guterman, que foi editor-executivo de "O Tempo" em 1997 e atualmente é editor de Primeira Página de “O Estado de S.Paulo”.

O livro tem como ponto de partida a influência inglesa na sociedade brasileira na virada do século 19 para o 20. Simultaneamente aos investimentos em infraestrutura (ferrovias e energia, principalmente), o futebol aporta no país, iniciativa de Charles Miller. Dos anos 1910 aos 2000, cada capítulo entrelaça a história e o desenvolvimento do futebol com fatos políticos.

Termina com a conquista do pentacampeonato em 2002, na Copa do Japão e da Coreia do Sul, e a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, analisada no trecho: “A eleição de um ex-torneiro mecânico, que soube moldar-se às circunstâncias e cuja retórica estava impregnada de simbolismo sobre a real capacidade do brasileiro, representava a esperança de um novo ciclo na história do país, em que gente pobre como Cafu, Ronaldo e Rivaldo talvez tivesse outras oportunidades de ascensão social muito além do velho e bom futebol”.

O livro de Guterman soma-se a uma fornada de títulos que começam a explicar o futebol como elemento fundamental na cultura nacional. Obras como “A Dança dos Deuses”, de Hilário Franco Júnior, e “Veneno Remédio, de José Miguel Wisnik, fogem do padrão de lançamentos sobre o esporte, antes restritos a biografias e histórias de clubes.

Para Guterman, o tricampeonato mundial é determinante na posição arredia da academia. “A visão que a intelectualidade brasileira tem da Copa de 70 ajuda a explicar um pouco essa má vontade acadêmica em relação ao futebol. Desde que se concluiu que a ditadura se aproveitou da conquista do tricampeonato para impor seus projetos ufanistas, ficou claro para uma parte do pensamento nacional que o futebol deveria ser tratado somente como ‘ópio do povo’. Só muito recentemente é que parte da academia acordou para a importância do futebol como representação plena dos ideais brasileiros.”

Ao relacionar a história com o futebol, o jornalista abre um novo espaço para discutir o esporte de forma emblemática, sem sisudez. “Falta à inteligência brasileira perceber que o futebol é uma autêntica manifestação de identidade nacional, perceber que o brasileiro compreende suas limitações e seu poder por meio do futebol e de suas alegorias.”

* Texto escrito para "O Tempo" e publicado em 14/11
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Aparte
Trabalhei com Guterman em 1997, quando fui trabalhar em Belo Horizonte, convidado pelo jornal "O Tempo". Ele foi meu chefe imediato, e isso acabou se revelando um privilégio. Aprendi muito com ele. Jornalismo se tornou um ato simples - na época, fazer a primeira página - sem, em nenhum momento, abrir mão da qualidade. Pelo contrário. Exigir a qualidade era uma de suas principais cobranças. Seu talento reside em tornar a qualidade algo tão fácil de fazer. Para poucos.

Li o livro para fazer a matéria acima e recomendo sua leitura.

Lavoura Arcaica

“Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.”
("Perto do coração selvagem", Clarice Lispector)

"Pois ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo."
("A paixão segundo G.H.", Clarice Lispector)

Entre chacretes e bacalhau

Lembro de ter visto pouco o Chacrinha na TV. Seu programa passava aos sábados à tarde, dia e horário ingratos para ficar em frente à TV. Se fosse durante a madrugada, seria diferente, como os diversos "Comandos da madrugada", de Goulart de Andrade, que assistia domingo adentro.

Portanto, não lembro dos calouros nem das apresentações musicais. Lembro, claro, dos bordões e seus brindes - bacalhau, abacaxi, calcinhas e cuecas. Lembro também da geração do rock que discutia a participação no Chacrinha como se fosse uma tese acadêmica, sempre nas páginas da outrora saudosa "Bizz".

Chacrinha é essencial para a TV. Antecipou em anos a onda de reality shows e a gana em superexposição que as pessoas têm. Seus calouros participavam várias vezes do programa. Ele humilhava, tirava sarro, colocava em xeque o bom gosto. Utilizava de artifícios questionáveis, mas, bem, não é isso que a TV faz hoje?

Na música, alavancou a carreira de inúmeros artistas. Aparecer em seu programa era sinônimo de sucesso, numa época em que os meios de divulgação eram restritos.

O documentário "Alô, alô Terezinha", de Nelson Hoineff, promete contar a história do apresentador - assim se apresenta no site: "É um longa-metragem sobre o maior fenômeno de comunicação do país". Mas sai do filme sem conhecer Chacrinha.

Já as histórias das chacretes, ainda que recortadas, permitem entender e conhecer suas vidas, como eram e no que se transformaram. Os calouros dão depoimentos vivos, hilários e mostram que o "Big Brother" deve muito mais ao Chacrinha do que a uma produtora holandesa. Os artistas desconversam, muitos entregam. O grande negócio do filme é saber quem comeu tal chacrete, essa é a sensação que fica em boa parte.

Uma outra parte deixa um tom melancólico, como o caso da chacrete que descobriu que seu grande amor era gay e se isolou em Angra dos Reis. Chacretes que vivem do passado, se expõem na internet, fazem shows. Calouros que relembram com saudosismo suas passagens pelo programa. Artistas que devem muito ao velho guerreiro, e que agradecem e se emocionam - caso de Agnaldo Timóteo, em depoimento contundente.

Não é um filme sobre Chacrinha, um personagem que ainda não foi dissecado. Apenas parte do personagem ganha alguma luz, com sua inspiração nos palhaços cantadores do Nordeste - o nome me foge agora. Mas permite compreender o universo que ele criou e que, de alguma forma, ainda persiste.

Sua frase "Eu vim aqui para confundir, não para explicar" aplica-se com perfeição ao filme, cara e boca do seu personagem inspirador.

15/11/09

Espírito estimulado

Num intervalo de poucas semanas, saíram três livros de Elias Canetti, "Sobre os escritores", "Festa sob as bombas" e "Sobre a morte". Li o primeiro, reunião de aforismos, anotações e breves ensaios sobre escritores e o ato de escrever.

Canetti escreve de forma pessoal, como se fosse um diálogo com um diário. Seus textos podem ter páginas ou uma linha para que ele diga o que pretende. O espaço é irrelevante, ler os textos de Canetti sempre gera uma certa provocação nos espíritos.

Trechos
"O que um poeta não vê não aconteceu."

"A pergunta, a terrível pergunta: uma pessoa realmente é capaz de mudar?
No 'Banquete', Platão diz que sim, como se tivesse acabado de ler Heráclito. Eles carregam o mesmo nome durante toda uma vida, diz ele, e são outros, tudo neles, dentro deles, é sempre diferente.
Não confio nisso, não estou muito seguro. Sei onde sou sempre o mesmo que sempre fui. É difícil enxergar por nós mesmos onde somos diferentes."

"Nos 'Pensamentos', Pascal sempre interrompe, o que conta a seu favor. Cada um monta as peças de outras formas. Elas ficam melhor sem serem montadas."

"Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo. Talvez pudesse ser parecido com ele, se eu não fosse eu. É a primeira vez que considero a possibilidade de um outro nascimento para mim, e isso só por amor a Stendhal."

"Ainda prefiro Deus a Tolstói."

"Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo."

"Existe uma tensão legítima no escritor: a proximidade do presente e a força com que ele repele; a nostalgia do presente e a força com que o escritor torna a abraçá-lo. Assim, o presente nunca pode estar próximo o bastante. Assim, o escritor não tem como repeli-lo para suficientemente longe."

13/11/09

Hang the DJ


"Respect", Aretha Franklin. Achei que tinha a ver com que vem acontecendo...

"R-E-S-P-E-C-T
Find out what it means to me"

12/11/09

Palavras

Do blog de André Forastieri

Last Dance
Maria Amélia foi pra balada. Balada de tiazinha, claro: Donna Summer no Credicard Hall com uma amiga.

Com cinquenta anos, dois filhos, tá ótimo – Hot Stuff, Bad Girls, bom pra dançar, pra reviver a adolescência nos anos 70, pra lembrar como a vida é boa.

Era a noite do apagão. Fim de show, sem transporte público nem táxi fácil, mais de uma da manhã, Maria Amélia ofereceu uma carona para a amiga, que mora no Jabaquara.

Demorou. O trânsito na Avenida do Café estava travado. Luz na rua não havia. Estavam quase chegando. O Fiesta Preto avançava devagarinho, metro após metro.

Um motoqueiro aproveitou a escuridão. Encostou ao lado do Fiesta preto de Maria Amélia e apontou a arma. Ela pisou no acelerador. O motoqueiro apertou o gatilho duas vezes e fugiu.

A bala calibre 38 atravessou o cérebro de Maria Amélia Leite Roque Taiana.

Segundo o Ministro da Justiça, Tarso Genro, o apagão foi um “microincidente”.

***
Eu agora. Que o crime poderia ter acontecido em noite iluminada, durante o dia, na hora do almoço, em qualquer hora, é fato. Uma coisa é segurança.

Outra coisa é o alto escalão do governo federal adjetivar incidentes de forma a ignorar as consequências. Para a família da Maria Amélia, passou longe de microincidente. Faltam perspectiva e uma pitada de bom senso.

Claro que a questão política falou mais alto, o partido logo saiu correndo para minimizar possíveis efeitos eleitorais. Mas não custa nada medir as palavras e demonstrar um pouco mais de respeito com quem sofreu algum dano na noite do blecaute.

Saiu da cabeceira

Li "Peixe dourado", de J.M.G Le Clézio e sai com a sensação de abalroamento.

A história de Laila, raptada aos 6 anos e vendida para Lalla Asma no Marrocos, é uma sucessão de dramas, abusos e soluções rápidas. Não há um momento do livro em que a garota não enfrenta situações críticas ou que suas ações possam ser derivadas de uma vontade legítima, sem que tenha que fugir de um algoz.

Em pouco mais de 200 páginas, o livro, que começa de forma instigante, perde-se na tentativa de ajeitar todos os dramas. A garota passa por inúmeros lares, foge, comete pequenos delitos, vai para a Europa, depois aos Estados Unidos, sempre fugindo. Não encontra paz.

Vai encontrar o vigor narrativo no final, quando Laila completa um ciclo. Entre as pontas, Le Clézio opta por explorar um rumo que gera um cansaço, talvez por narrar uma história que parece distante por demais ou em que o leitor possa insistir em não enxergar.

Durante a leitura, estourou o caso Geisy Arruda. Uma ficção levada às manchetes, que provocou a mesma sensação.

Laila também passou por humilhações e abusos. Em sequência. Para encontrar paz, teve que voltar ao ponto inicial.

Sua vida é um retrato das mulheres que não encontram paz para viver, sempre à mercê dos homens que as cercam. Do norte da África ao sudeste brasileiro, as semelhanças são assustadoras. Impossível dizer o que é ficção, tanto em São Bernardo do Campo como no Marrocos.

• Mais Le Clézio no VERBO TRANSITIVO
"O africano"

11/11/09

Aquele vestido

A "Folha" soltou hoje uma pegadinha. Levou uma atriz de vestido curto, sem sutiã, para algumas universidades em São Paulo, instituições de alunos com maior poder aquisitivo e com maior graduação no MEC do que a Uniban - o que não é muito difícil.

Fez a moça andar por grupos de alunos, realizar perguntas sobre a faculdade, onde era o banheiro etc. Com o caso de Geisy Arruda ainda quente, a reação foi comparativa e imediata.

Mas, ao contrário da horda da Uniban, a revolta foi silenciosa.

As garotas xingavam pelas costas, ironizavam e a chamavam de puta. Os garotos ficavam de olho, sem jeito. Reações que demonstram um conservadorismo envergonhado. Elas, com medo do que a atriz poderia fazer com o lado masculino da comunidade, preferem desqualificá-la. Como se a puta fosse alguém que pudesse desestabilizar o ambiente, sem que as garotas demonstrassem confiança. A roupa, nesse caso novamente, carregava uma culpa quase mortal para as moças.

Já os rapazes agiam como se fossem bobalhões diante de uma mulher bonita, consciente e confiante. Seja ela puta ou não, demonstrava uma postura com as quais o macho não consegue lidar, apenas quando o poder entra em jogo - no caso da Uniban, em forma de linchamento, ou com dinheiro para quem costuma contratar serviços profissionais para se satisfazer.

O que espanta é a falta de confiança das pessoas em lidar com adversidades, diferenças e liberdades. Qualquer peça que saia da engrenagem padrão, que perturbe a rotina, parece gerar distúrbios nas mentes. Uniban, PUC-SP, USP, Universida, Inib e FMU, da classe média aos mais endinheirados, a faculdade perde o poder de diálogo.

Mais do que o diploma, o que se vê hoje, me parece, é uma tentativa de estabilidade forçada, de machos e fêmeas em papéis separados e definidos. Lógico que daria nos ataques da Uniban e nos xingamentos no campus da PUC.

Das trevas ao fim das baterias

A conversa some de repente. As luzes se apagam, apenas uma luminária insiste em sobreviver, apenas por alguns segundos, vai piscando até se exaurir. Lá fora, apenas o luar, de uma noite nublada. Luzes de emergência, faróis de carros, luzes de geradores.

A energia não volta.

Descubro que em outros cantos houve picos de luz, mas não a queda.

Com o fim da luz, em meio à noite de terça-feira, surge a dúvida: o que fazer agora? Olho sem querer para a luz de repouso do laptop e me reanimo, há uma solução para a noite, ainda cedo, pouco mais de 22h.

O celular me ajuda a guiar para desligar as tomadas, tirar o laptop do seu lugar e levá-lo a outro canto. Retomo um trabalho até a bateria acabar. Lembro do iPod, com outro audiolivro armazenado. Infelizmente, a bateria está no fim, ouço pouco mais de 10 minutos.
A bateria do celular também vai abaixando, enquanto bipa com a sucessão de mensagens.
22h30: toda sp ta no escuro
22h31: sp, rj e rs..
22h44: sp, rj, rs, pe e parte de mg
22h55: a folha saiu do ar. G1 fala sobre pane em itaipu
23h44: 800 cidades sem luz. Previsão de 1 ou 2 dias para reestabelecer as linhas de transmissão
23h49: ta recebendo as msgs?

Sim, recebia as mensagens, só não me manifestava porque a bateria estava baixa, uma daquelas infelizes coincidências. Até que me lembrei que tenho guardado um telefone de fio, que não precisa de energia para funcionar. Fui até ele, instalei e recuperei as minhas linhas de transmissão.

Depois, agoniado com a falta de sono característica para o horário, me fiz lembrar que, sim, eu tenho velas em casa. Acendi umas cinco, deixei-as ao redor da poltrona da sala e me armei de um livro. Li sem esforço, numa cena setecentista.

De tempos em tempos, me debruçava na janela olhando para um mar de prédios todos na escuridão, com as ruas já silenciosas, imaginando um possível caos na cidade. Hospitais, metrôs, cinemas, restaurantes, bares, avenidas, cruzamentos, saídas de escolas, a falta de luz gera uma incerteza com a qual não estamos preparados a lidar.

Estranho olhar para os edifícios escuros, como se fossem peças abandonadas, num local devastado. Somos bichos de luz, tais como aqueles insetos que rodeiam lâmpadas em dias quentes. Já passa da 1h quando apago as velas e vou para a primeira tentativa de sono. O escuro, de alguma forma, me estimulou. A sensação de "o que eu posso fazer agora?" ficava a me perturbar, pois sabia que não havia nada mais a fazer.

Um segundo iPod me alivia com uma seleção curta de músicas, o suficiente para acreditar que o sono havia chegado. Eram 2h, e a luz ainda não voltara. Sem saber o que havia acontecido, com poucas informações, abriu-se uma espécie de hiato. O que incomodava não era tanto o escuro, mas o fato de não saber. Se havia transmissão de TV e internet para outros lugares, não me conformava com o fato de não conseguir ter uma informação.

Mas e daí, estava lá com as velas e o livro, com os últimos recursos de baterias, com um telefone que me conectava ao mundo - mundo que ou tivesse telefone semelhante ou não fosse atingido pelo blecaute. Delírios ficcionais surgem, criando universos fantasiosos em meio à escuridão, imaginando cenas de Hollywood, invasões hackers, um caos destruidor. Até que o sono não resistiu.

Às 3h05, lembro imediatamente de uma música do Legião Urbana, "Eu era um lobisomen juvenil": "Teve torcida gritando quando a luz voltou". Vou ao interruptor do quarto para ter certeza. Aguardo uns 10 minutos antes de religar a geladeira. Volto a dormir, com uma vontade imensa de ligar a internet, vencido pelo sono e pelo restante de escuridão que ainda havia para aproveitar, sem saber se a escuridão atiça instintos, provoca criatividade ou gera abstinência.

10/11/09

A cumplicidade possível

Há algumas imagens que são ícones de um amor romântico, idealizado. Coisas que dois parceiros adoram falar um para o outro, por exemplo, a vontade de envelhecer ao lado do companheiro, enfrentando os obstáculos da idade.

Um certo cansaço, uma falta de paciência, talvez uma dor aqui. Envelhecer sozinho amedronta boa gente, e uma viuvez precoce pode fazer com que essa gente case novamente, para não ter que passar a terceira idade - ou melhor idade, como dizem os manuais politicamente corretos - solitária, quem sabe por medo da solidão, que costuma ficar barulhenta com o passar dos anos.

A companhia estimula. As dores são iguais, as lembranças batem do mesmo jeito. Talvez o mais importante seja a cumplicidade. Melhor se vier com o tempo.

Um casal de idosos que mora andares acima do meu costuma me cumprimentar sempre que os encontro, no elevador, nos jardins em frente ao edifício, nas ruas do bairro. Às vezes, estão no banco do jardim, tomando o sol da manhã. Em outras, vão ao supermercado ou à padaria. Ou então estão somente andando, deixando o tempo passar.

Não sei os nomes deles - esta infeliz distância resultado de uma cidade que acha normal apenas o reconhecimento facial, algo que me culpo -, devem ter seus 60, 65 anos. Não sei se têm filhos ou netos, nem familiares.

Estão sempre bem humorados, fazem os comentários clássicos sobre o tempo, discutem sobre o troco da padaria, caminham de mãos dadas, ela com um pouco mais de dificuldade, no seu físico mirrado, ele, com marcas da idade, mas com mais vigor.

Olho para eles e vejo que aquele clichê romântico é possível. Não conheço a história desse casal, mas a felicidade com que os dois vivem, felicidade que é transparente nos momentos em que os flagro, entrega que existe algo mais do que a vontade de querer passar o resto da vida juntos.

Lembrei desse casal quando vi esta foto da National Geographic, na seção Photo of the day. A neta registra a avó arrumando o chapéu do avô antes de uma foto na plantação de cevada, na Nova Zelândia.
Eles foram casados por quase 60 anos. E aquela foi a última colheita do avô.

09/11/09

A guerra de Tarantino

Um filme de Tarantino sempre provoca alvoroço, no público e na crítica. Em 17 anos, ele lançou apenas sete longas, o que gera sempre um burburinho nos hiatos de cada filme. Barulhos diferentes, como o alvoroço em "Cães de aluguel" e "Pulp fiction", a desconfiança com "Jackie Brown" (talvez o meu preferido) e "Kill Bill".

Seu "Bastardos inglórios" chegou com balbúrdia, dois anos depois do fracasso de "Prova de morte", filme que nem estreou no Brasil ainda. Um Brad Pitt com queixo de Marlon Brando, o cenário da 2ª Guerra Mundial, na França, uma história que envolve um esquadrão da morte judeu, um caçador de judeus carismático, elementos que levaram o filme de Tarantino a uma exposição antecipada.
Tarantino sabe filmar e escrever. Seus diálogos são espertos, cheios de segundas intenções, rápidos, sem dar dicas para onde a ação irá caminhar - podemos até imaginar um rumo, mas podemos trocar de ideia 10 segundos depois, sem que ele faça do desenvolvimento um ato forçado a surpreender o espectador.

Pitt é um coadjuvante de luxo, seu papel é quase caricato. "Bastardos" é de Christoph Waltz, que vive Hans Lana, o caçador de judeus. Sua interpretação é das melhores coisas do cinema neste ano.

De resto, se "Bastardos" tivesse uns 30 minutos a menos seria um filme acima da média, com boas sacadas, um roteiro diferente, uma farsa. Longo, com mais de 2h, fica arrastado em alguns momentos e seu impacto se perde.

Por que será que fazer um bom filme com 100 minutos é tão difícil?

08/11/09

Talibãs fashionistas na faculdade

"Foi apurado que a aluna tem frequentado as dependências da unidade em trajes inadequados, indicando uma postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento."

"A sindicância apurou que, no dia da ocorrência dos fatos, a aluna fez um percurso maior do que o habitual aumentando sua exposição e ensejando, de forma explícita, os apelos de alunos que se manifestavam em relação à sua postura (...)"

"A aluna optou por um percurso maior ao se dirigir ao toalete, o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas (...)"

Sob o título "Responsabilidade educacional", a Uniban veiculou anúncios nos jornais de hoje comunicando a expulsão da aluna Geisy Arruda, que quase foi linchada por uma turba no campus de São Bernardo do Campo. Os trechos acima foram tirados do texto da peça.

Em seu blog, Marcos Guterman diz que a decisão foi o ato final do linchamento. As justificativas são risíveis e até simplórias. Aplicar a pena baseado em trajetos longos? Postura incompatível? E a ação de alunos e professores, essa sim é uma postura compatível com a universidade (sic)?

No site da Uniban, no link Missão e Valores, assim a universidade apresenta seus objetivos:
• "Promover a formação integral do indivíduo, por meio da capacitação profissional, da produção e aplicação do conhecimento, da promoção da cultura, do respeito aos valores éticos-morais, através de um processo educativo contínuo de qualidade, voltado para o desenvolvimento da sociedade."

• "Ser uma instituição de referência na Educação Superior no que diz respeito à qualidade de ensino e do corpo docente, à pesquisa e ao compromisso social."

Destaca cinco valores, dois reproduzidos:
• "Ética - Observar os mais elevados princípios e padrões éticos, dando exemplo de solidez moral, honestidade e integridade."
• "Ser humano - Propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho."

Claro que os textos são articulados por meio de teses de autoajuda, textos padrões, só blablablá básico. Mas me parece um tanto pretensioso diante do que aconteceu, mais, um tanto além dos corpos discente e docente, principalmente a parte que participou dos ataques. Além disso, quem escreveu o anúncio e quem decidiu pela pena esqueceram claramente das "missões" e dos "valores" da Uniban.

A proliferação de faculdades e universidades particulares de qualidade questionável, geridas na esquina, iria gerar distorções como essa, em que é possível acontecer absurdos como a decisão da Uniban. Não é preciso ser sociólogo, antropólogo ou educador para perceber que tem algo errado nesse ensino "fast food", e que o Brasil irá pagar por isso em algum momento.

Os colegas da garota expulsa cursam turismo. Imagine então o que vai acontecer com os receptivos na Copa-14 ou Olimpíada-16 quando esses estudantes se tornarem profissionais do turismo. Estão eles preparados para encarar culturas diversas, comportamentos diferentes?

E as turmas de jornalismo? E os arquitetos? Enfermeiros? Filósofos (!!)?

A Uniban revelou uma cara machista, preconceituosa, atrasada, moralista. Culpa a mulher pelo estupro, coisa primitiva, de investigações policiais arcaicas, do século 18. Essa é a cara do ensino no país. Tanto que o "Fantástico" transformou a questão numa matéria de moda. Superficial, reducionista.

Estar com um vestido curto e justo é uma coisa. Ser atacada com violência por alunos e professores é outra coisa, muito diferente. Como no Brasil as aparências são mais importantes do que conteúdo, é mais fácil expulsar a aluna que fez um trajeto mais longo do que punir os atacantes, quase 100% da faculdade. Educar dá trabalho. Pais que, segundo a universidade, reclamaram e protestaram contra a garota para pedir a expulsão. Claro, é mais fácil expulsar o "perigo" do que educar os filhos. Fechar os olhos sai como a melhor decisão, assim, todos imaginam criar futuros e responsáveis cidadãos, atentos aos bons costumes.

Não é preciso ser especialista em publicidade para chegar à conclusão de que essa decisão é um tiro no pé. Mas há opções para os vestibulandos? Mais. Esses vestibulandos querem opções?

Quem sabe o "Fantástico" não faz mais matérias sobre moda em universidades. Assim, todas as garotas que não se vestem com sobriedade poderão ser expulsas do universo escolar, acabando de uma vez por todas com a má influência que elas exercem sobre os alunos e o ambiente pedagógico.

20 anos depois

Leio nos jornais um farto material sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Lembrei de duas obras que retratam o período de forma diversa, mas que valem como peça essencial para entender o que aconteceu naquelas Alemanhas.

Um é o livro "Stasilândia", já tratado aqui. O outro é o filme "A vida dos outros", que indiquei no final do post sobre o livro. É a história de um policial da Stasi (a polícia política da Alemanha Oriental) que se envolve com um casal que está sob investigação em Berlim. Venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

O filme se passa cinco anos antes da queda. Na tocaia para observar e ouvir o que se passa na casa dos dois investigados, o policial rompe a barreira fria que a Stasi incutia em suas fileiras e revela uma certa humanidade. Um belo filme.

***
Aparte
Não me lembro muito bem de 1989. Vou buscar na memória fatos que me coloquem naquele ano. O fim de um namoro, o início de uma faculdade, uma turma de amigos que se foi, outra que chegou, um verão que marcou época, uma Erundina eleita, mas aquele 9 de novembro me passa incólume nessa busca.

Seus reflexos surgiram quando assisti "Asas do desejo", com sua alusão ao muro nas vestes de anjos. Em 1993, com "Tão longe, tão perto", já com o muro no chão e com uma belíssima Nastassja Kinski, loira, Wim Wenders retomou o tema, mas aquém do original. Era uma tentativa de refletir a unificação.

Aquele 9 de novembro me é distante, por mais que eu tente cavucar. Pessoalmente, um muro também havia caído.

06/11/09

Hang the DJ


"Nothingman", Pearl Jam. É a música de fundo para uma das mais belas cenas de "Californication", no final da segunda temporada.

No dia da morte de Kurt Cobain, Hank e Karen estão se despedindo, quando ela o chama para acompanhar a vigília dedicada a Cobain. O que a motivou foi uma carta, que Hank lê em off, uma declaração de amor comovente. Depois, a cena pula para 2008, época em que se passa a temporada.

Seriado um tanto sexual, pervertido até, esconde em seu roteiro uma grande história de amor, muito bem recortada pelos roteiristas. Ele é um escritor que publicou um livro de sucesso em Nova York. Ao se mudar para Los Angeles, sofre um bloqueio, ao mesmo tempo em que tenta recuperar sua mulher.

Tem bom humor, sarcasmo, não liga para convenções, tem um excelente roteiro, diálogos dos mais criativos. Em DVD, foram lançadas duas temporadas. Nos EUA, está na terceira.

"Querida Karen,

Se você está lendo isso é porque eu realmente tive coragem de enviar. Você não me conhece muito bem, mas, se deixar, verá que tenho o costume de falar que tenho dificuldade para escrever, mas isso... Isso é a coisa mais difícil que já escrevi. Não há maneira fácil de dizer, então vou falar logo.

Conheci uma pessoa. Foi um acidente. Eu não estava à procura e não estava preparado.

Foi uma tempestade perfeita. Ela falou algo, eu também. Quando percebi, queria passar o resto da minha vida naquela conversa. Agora estou com a intuição de que ela pode ser a mulher certa. Ela é totalmente louca, de um jeito que me faz sorrir (...).

Ela é você, Karen. Essa é a boa notícia. A má é que não sei como ficar com você neste momento. E isso me assusta. Porque, se não ficar com você agora, sinto que nos perderemos por aí. O mundo é grande, mal, cheio de reviravoltas. As pessoas costumam piscar e perder um momento. O momento que poderia mudar tudo. Não sei o que está acontecendo entre nós, e não posso dizer por que você deveria ter um pouco de fé em alguém como eu.

Mas como seu cheiro é bom, como o lar (...)"

05/11/09

Machos de plantão

A coluna de Contardo Calligaris de hoje na "Folha" trata do caso da garota que foi quase linchada e estuprada em público numa universidade em São Bernardo do Campo por ter aparecido de vestido curto e dos xingamentos que rodeiam o futebol (falei superficialmente aqui).

Reproduzo a coluna abaixo, que lança alguma luz no ato medieval numa universidade (!?) e na terra devastada dos campos de futebol.

***
A turba da Uniban

Na semana passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.

O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

Cinema obsessivo

A Mostra Internacional de São Paulo termina hoje. Não assisti a nenhum filme. Não faltaram títulos que me entusiasmassem para enveredar pelas salas de cinema. Sobrou preguiça.

Anos atrás, ir a uma sessão da Mostra era algo prazeroso. Sessões lotadas sempre existiram, mas não havia um frisson como existe hoje, em que pairam uma certa tensão e ansiedade excessiva na procura por ingressos não só de filmes de diretores consagrados ou cults, mas de qualquer filme, qualquer diretor.

Tem gente que concentra suas visitas anuais ao cinema nesses dez dias de outubro. O resto do ano passa sem ir a uma sala de exibição. Ir à Mostra dá status. Preguiça...

Por que brigar para assistir ao último de Almodóvar se em duas semanas ele estreia no Brasil? Talvez eu quisesse assistir aos filmes sobre Maradona e Eric Cantona. Mas que agonia para comprar um ingresso, impossível.

A Mostra me apresentou Kieslowski e seu "Decálogo" lá no final dos anos 80. Foi lá que assisti, já em 94 ou 95, ao encontro de Wim Wenders e Antonioni ("Além das nuvens"). Entre outros.

Até 1996, comparecia a algumas sessões. Depois, com a vida em outra cidade, só via a Mostra pelos jornais. Quando retornei a SP, logo no primeiro ano, em 2005, ingenuamente, fui tentar comprar ingresso para "A divina comédia", de Manoel Oliveira. Lotado com dias de antecedência. Troquei por "2046", de Wong Kar Wai. Vi dois casais se estapeando, literalmente, por causa do último ingresso. Desisti.

Ano passado, a trabalho, retornei à Mostra. Vi poucos filmes, mas o clima era o mesmo. Vale mais a conversa na fila de espera, com o guia folheado incessantemente, do que sentar, esperar o escuro e assistir a um filme. O que salvou foi a entrevista que fiz com Wim Wenders (aqui e aqui).

Pena. A Mostra era uma forma simples e agradável de se interagir com a cidade. Hoje, virou obsessão.

04/11/09

Minha ideia de felicidade 13

Comida caseira.

03/11/09

Da mutilação ao tédio

Não entendi "Anticristo". Confesso. Não lembro das críticas publicadas na época e me recusei a procurá-las depois de assistir ao filme de Lars von Trier. Não entendi o burburinho, pois a história é até banal.

Um casal em crise após a morte do filho busca refúgio em Éden, uma floresta que revela segredos do passado de ambos. Há sexo - as cenas explícitas me pareceram gratuitas, como a da abertura -, há mutilação, extremamente realistas visualmente, há tortura psicológico, que em vários momentos irrita o espectador - ao menos, me irritou.

Von Trier usa elementos do gênero terror consagrados em produções americanas, como a música como antesala do susto, cenas aparentemente normais que antecedem um ataque, por exemplo. Mas, com exceção de uma única cena, esses recursos passam distante da sua origem e funcionam apenas como elemento instigador.
Em vários momentos me lembrou "Eu sei que vou te amar", um dos filmes mais chatos que já vi, de Arnaldo Jabor, com uma Fernanda Torres com cara de menina, discutindo a relação de forma interminável com Thales Pan Chacon. Em outros, em cenas como as regressões da mulher, tive a sensação de estar diante de "A vila", de M. Night Shyamalan. Até a "Bruxa de Blair" ganhou eco.

"Anticristo" me pareceu um exercício de pretensão. Como Von Trier já é pretensioso por vocação, o filme, que causa um certo "e daí?" ao final, saudável em obras como de Antonioni, por exemplo, só causa tédio e arrependimento.

30/10/09

Hang the DJ


"I got you (I feel good)", James Brown. Porque hoje é sexta...

29/10/09

Uma nova leitura

Acabei de ouvir a biografia de Tim Maia, "Vale Tudo", de Nélson Motta. Experiência nova, nunca tinha entrado no campo do audiolivro. No começo, estranhei demais o gênero, talvez com um certo preconceito de enveredar por uma "leitura" que me era desconhecida. Livro para mim sempre foi no papel.

Ouvir requer uma concentração maior do que ler no papel. Instantaneamente nos desviamos da "leitura", como se a narração fosse um música qualquer. Com o tempo, as coisas se ajustam e a "leitura" flui, sem atropelos.

Claro, o título facilita o interesse. Tenho quase certeza de que ouvir alta literatura seja inviável - e a lista de livros disponíveis caminha nessa direção, títulos de autoajuda, biografias pop, humor e um ou outro bestseller são maioria. Mas a biografia de Tim Maia revela interesse, provoca gargalhadas, tem uma história saborosa, e isso faz com que ouvi-la se torne uma tarefa bem mais do que agradável - apesar do texto insosso de Motta, cheio de clichês, que só se salva por conta da vida de Tim Maia, um personagem dos mais interessantes, ricos e idiossincráticos.

Como é que nunca ninguém filmou essa história?

28/10/09

Saiu da cabeceira

Hoje, investigação policial com técnicas forenses é coisa banal na TV. Os três "CSI", mais "NCIS", "Bones", para citar três exemplos, exploram o detetive que trata o crime como ciência. Não era assim no século 19.

É o que mostra Kate Summerscale em "As suspeitas do sr. Whicher", livro que conta a história da investigação de um crime que chocou a Inglaterra na segunda metade dos oitocentos. Jack Whicher pertence à recém-criada Polícia Metropolitana, especialmente dedicada à investigação criminal e ligada à Scotland Yard. Era uma época em que o sistema judicial não prezava a figura do detetive, ainda incipiente.

Com o assassinato de um menino de 3 anos, de uma família de Road Hill, Whicher deixa Londres para investigar o crime. Lá, prende-se a detalhes pouco explorados pela polícia local, o que custa sua reputação - detalhes da vida pessoal da família surgem na imprensa, que ainda não desempenha um papel investigativo, apenas publica as versões oficiais, disputadas por uma infinidade de publicações.

Essa atenção a modos de ser, a peças de roupas, à linha do tempo faz com que a investigação não avance, enquanto existe a pressa por condenação.

Summerscale faz uma pesquisa criteriosa em arquivos de jornais e bibliotecas para reconstruir a época e o caso. O mais bacana do livro é o paralelo que ela traça com a recente literatura policial, que também começava a criar corpo na época.

Fala de Edgar Allan Poe, Charles Dickens - este, inclusive, escreve sobre o crime para jornais -, Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes) e Wilkie Collins, que cede trecho de seu "A pedra da lua", um clássico do romance policial, para a epígrafe do livro. Whicher vai inspirar uma série de personagens que o gênero iria criar a partir de então. Summerscale conta como essa história começou.

27/10/09

Comunidade, identidade, estabilidade

Fiquei sabendo pelos jornais que o metrô criou uma nova forma de embarque na estação Sé, para quem vai para a zona leste de São Paulo, no final da tarde. Esse destino é um dos mais tumultuados, o fluxo de pessoas é maior do que as plataformas comportam. O que causa sempre um certo desconforto.

Tinha entendido que uma série de barreiras e um batalhão de "orientadores" fazem uma triagem e distribuem as pessoas por zonas de embarque, para determinados vagões. Achei confuso, mas se ajudasse o povo a tomar o metrô de volta para casa de um jeito mais civilizado já seria um avanço.

Mas eis que eu conheci parte do novo método de embarque. Não o das barreiras e dos "orientadores", mas o da sinalização. A foto, feita pelo celular, fala melhor.
No chão das plataformas, foram pintadas marcas que indicam o local exato onde o passageiro deve esperar o trem, como um batalha naval. Isso, às 18h, deve ser das coisas mais ineficientes já imaginadas.

Coisa de "Admirável mundo novo", mecanizada, robotizada. Certo é que embarcar no metrô de SP em determinados horários exige mais do que paciência, tal como um preparo físico que suporte o desafio de empurrões, chutes, apertos e afins.

Claro que faltam quilômetros de metrô para aliviar esse sufuco. A malha de hoje é um desenho que seria atual há 50 anos. Triplicar, como é o desejo do governo e as obras indicam, começa a aliviar, mas não resolve. SP precisa de no mínimo cinco vezes a quilometragem atual.

Com essa brincadeira de batalha naval, o metrô olha para o passageiro como um robô. É mais fácil controlar (ou tentar) do que planejar (e agir).

"Passou a mão pelos olhos, como se procurasse apagar da lembrança a imagem daquelas longas filas de anões idênticos nas mesas de montagem, daquelas manadas de gêmeos enfileirados na entrada da estação do monotrilho de Brentford...

Imagine uma usina cujo pessoal fosse construído por Alfas, isto é, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, com boa hereditariedade e condicionados de modo a tornarem capazes (dentro de certos limites) de fazerem livremente uma escolha e de assumirem responsabilidades. Imagine isso!"
("Admirável mundo novo", Aldous Huxley)

26/10/09

Sexy sua

Eis que chega a última revista Vip promocional, a terceira. Abro e vejo na capa que Grazi Massafera foi a eleita a mulher mais sexy do mundo pelos leitores. A segunda foi a Juliana Paes, seguida por Scarlett Johansson, Ana Hickmann e Sandy - são as cinco primeiras, a lista das 100 vai aqui.

Viro as páginas e encontro dezenas de nomes de mulheres que nunca ouvi falar, nunca vi fotos, nem nada. Do Brasil e do exterior. Por exemplo, uma tal de Dulce Maria, que, segundo a revista, é integrante do RBD e já escreveu um livro - foi a 20ª colocada. Ou Cidia Luize (89), que teria sido revelada pelo "Fama". Talvez a minha "preferida" seja Barbara Koboldt (79), assim apresentada: "Ela já pousou nua, tem dois filhos, trabalhou como repórter do Otávio Mesquita. E finalmente ingressa nas 100+ graças a sua participação no reality show 'A fazenda'".

Lamento por Jennifer Connelly ter aparecido muito atrás (96), assim como Alessandra Negrini (57). Estranho a sexta colocação para Emma Watson, que faz Hermione na série cinematográfica "Harry Potter" - seriam os leitores de "Vip" admiradores de Nabokov?
Grazi Massafera foi BBB e percorreu o caminho natural depois do show. Posou nua, frequentou todos os programas da Globo e chegou à dramaturgia. Não sei quantas novelas ela já fez ou se já aventurou por outras artes. O que leio em jornais e internet é que ela é uma moça esforçada, sem talento, mas que insiste e se prepara.

Disse recentemente que está estudando e que chega em casa e vai direto para o Google pesquisar tudo aquilo que seus companheiros de trabalho falam durante as gravações. Comovente. Além de tudo, é esperta. Essa declaração mostra uma certa humildade e vontade de aprender, mas mostra também que ela sabe jogar. Indiretamente, classificou seus colegas de pessoas inteligentes, cultas, que falam coisas que ela não entende.

Resta saber se ela é, me perdoem a palavra, burra demais e não entende o abc proferido nos estúdios, ou se ela é mais esperta do que todos eles, que não dizem nada e ainda recebem elogios como este. No primeiro caso, ela continua a ser alvo de zombaria, ainda que corajosa ao se expor - o que é louvável num aglomerado de "estrelas". No segundo, dá um tapa de luva de pelica que merece aplauso.

Não votaria nela como a mulher mais sexy do mundo, mas Grazi ganhou alguns pontos comigo após o caso do Google.

25/10/09

Arquibancada caseira

Não preciso ligar a TV, a internet nem o rádio para saber os resultados de jogos que envolvem times paulistas. Os gritos e xingamentos que ecoam no entorno de onde moro me obrigam a saber qual time marcou um gol.

Por aqui, a maioria é são-paulina, com palmeirenses e corintianos a seguir, com algum espaço para santistas.

Hoje, com sete gols no clássico Santos x São Paulo, foi uma festa. Mas foi também um show de horrores, pois aos gritos de gol mais a vibração somaram palavrões vindos de janelas vizinhas. Coisa de baixo nível, que ganharia destaque numa arquibancada qualquer.

Falaram e criticaram Maradona pois ele mandou seus opositores "chuparem" após a vitória sobre o Uruguai, que classificou a Argentina para a Copa-2010.

Pois bem.

Quando o São Paulo marcou um gol de empate, após os gritos e xingos, um garoto, de no máximo 12 anos, perceptível pela voz, bradou de alguma janela: "Chupa, peixe, chupa que é bom, peixe".

Imediatemente, outro garoto, também da mesma faixa, soltou a resposta: "Chupa você que é bambi", referência ao apelido dado pelas torcidas aos são-paulinos.

E assim foi durante os outros cinco gols, "chupa, peixe" de um lado, "chupa, bambi" de outro.

Que o futebol, em todos os seus níveis, é machista, sabemos. Então, resta acrescentar a esse ideário o "chupa", alusão à felação, recurso tipicamente machista, como se tal prática fosse uma humilhação, ou, mais provável, uma forma de poder e submissão.

(Temo cair em psicologia barata - se é que já não cai, me perdoem.)

O futebol permite essa liberalização, como se xingar o outro fosse um similar a treinar boxe, um socar constante como forma de aliviar a raiva. Então, esse futebol libera machões e machinhos, a gritar da janela de casa, deixando companheiras, mães, pais todos orgulhosos do "chupa" - e creio que a bebida tenha alguma participação nas ações e reações.

Uns brigam, alguns chegam a matar. Outros xingam árbitros, jogadores e técnicos, até atiram coisas no gramado. Muita gente grita da janela, vibra, extravasa. O futebol acaba por gerar uma série de reações, condenáveis ou não, e o grito de "chupa" esbravejado por dois garotos de 12 anos não revela nada além de puro preconceito e ignorância, triste de se ouvir, pois longe de ser uma disputa saudável de dois torcedores mirins.

23/10/09

Hang the DJ


"Uns dias", Paralamas, uma espécie de homenagem na trilha do documentário "Herbert de perto" - com Dado Villa-Lobos, tanto lá como aqui.