24/06/09

A cidade

São Paulo talvez nunca encontre descrições tão precisas quanto as de Vicenza Scarpellini, artista plástica e designer italiano morto em 2006, aos 41 anos.

Por seis anos, ele dividiu a coluna "Urbanidade", na "Folha", com Gilberto Dimenstein. Scarpellini colaborava com uma ilustração e um pequeno texto, de modo a dar cara à cidade, uma crônica visual apoiada pelas suas observações.

O recém-lançado livro "San Paolo" compila esse trabalho, num recorte de sua produção que explica muito da SP da virada do século. Seus desenhos captam cenas quase que invisíveis ao passante, os comentários aprofundam a relação com a cidade, com um olhar crítico e, ao mesmo tempo, acolhedor.

Assim Dimenstein encerra o prefácio do livro: "Quando forem rever a história dessa cidade, especialmente neste momento de redescoberta, os desenhos de Vicenzo serão um de seus melhores registros".

Esta SP de Scarpellini eu reconheço.

Alguns instantâneos
• Vida após a morte
"Pouco restou da antiga elegância de Congonhas, que está em atividade há 65 anos e já foi o terceiro aeroporto do mundo. Em seu interior, devorado pelas lojas, o espaço arquitetônico morreu. O que sobrou é um espaço tristemente incoerente. Vida real, dirá alguém. E parece que as incoerências só podem ser corrigidas nas artes ou nas ciências, mas não na vida real."
• Galeria do Rock, quarto andar
"As galerias do centro não são, como certos shoppings, monumentos separados do ambiente urbano. Abertas nas extremidades, deixam passar de uma rua para outra. São proporcionais à estatura e aos movimentos humanos. Seus espaços quase convidam a medi-la em passos, braços, pés (desvairadas grandezas de outrora, vencidas pela firma abstração do metro)."

• Largo do Arouche
"Esta praça, como a Dom José Gaspar, foi reformada sem assentos públicos. As duas se parecem com uma rotatória, meros lugares de passagem. Medo dos moradores de rua? De um lado, entre todos os cidadãos, o poder público distingue os que não deseja. De outro, estende a todos a 'culpa' desses poucos. É como se o caçador, para matar a raposa, atirasse também em seus cachorros."

• Paraíso perdido
"Sobretudo nas noites que antecedem feriados, urinar na rua tornou-se comum e, sem distinção de classe, até socialmente tolerado. Era de se esperar que os instintos dos cavalheiros estivessem sujeitos a um maior grau de restrição, mas o ato pode ser visto como uma pichação orgânica: marcação do território em que o autor, ao aliviar a bexiga, se expressa como pode."

• Rua Nova Barão vista da rua 7 de Abril
"Que espaço é o centro? Não um só, mas vários. Tantos quanto as possíveis definições e os pontos de vista de todos os que andam pelas ruas. Porém certos espaços, mais do que outros, são 'lugares'. Permeáveis. Precários e caóticos, mas reconhecíveis. Pontos de encontro e convivência. E quem os atravessa, durante o dia, toma um banho de pessoas."

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