07/07/09

25 de janeiro de 2007

O post com o documentário sobre Arnaldo Baptista me lembrou de um texto que escrevi para o jornal "O Tempo", quando os Mutantes se apresentaram no aniversário de São Paulo de 2007. Era a primeira apresentação no Brasil em mais de 30 anos e a primeira depois do retorno de 2006.
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Neste ano, não houve Ipiranga com São João, como em 2004. Também não foi no Pátio do Colégio, o local onde São Paulo nasceu em 1554, que aconteceu a principal comemoração do aniversário da cidade. No 25 de janeiro de 2007, aos 453 anos, São Paulo festejou no parque da Independência.

Esta cidade, que enfrenta uma espécie de inferno astral, precisou ir até a Independência, no lugar onde dom Pedro 1º, depois de vencer uma dor de barriga nos arbustos à margem do riacho Ipiranga, gritou a máxima brasileira. São Paulo foi tentar comemorar um pouco.

Depois de exatos 11.190 dias os Mutantes se apresentaram em um palco brasileiro. No aniversário de São Paulo, essa banda paulista de certidão renasceu na cidade de onde lendas e mitos surgiram na virada dos 1960 para os 1970. Fundamentais para a música produzida no Brasil desde então, os Mutantes tocaram num palco armado em frente ao Museu do Ipiranga – rebatizado de Museu Paulista, nome que dificilmente vai “pegar”, pois demagogo –, depois de Nação Zumbi e Tom Zé.

Quando, às 20h23, os quatro mutantes - Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Dinho e Zélia Duncan - desceram as escadas do Monumento à Independência, caracterizados como portugueses – Arnaldo como jesuíta –, e pisaram no palco, o que aquelas 50 mil pessoas (projeção da PM, 80 mil para os organizadores) começaram a ver era uma banda bem-humorada, com um repertório rico e pouco ouvido.

Quem ouve Mutantes hoje? Talvez a banda não seja grande vendedora de CDs, mas sua influência ultrapassou fronteiras, logo depois de arrebentá-las por estas terras. Se existe rock, música popular, mangue beat e afins no Brasil, é porque existiram Mutantes. Muito do que se ouve hoje deve a alma aos discos dos Mutantes. Além-mar, Kurt Cobain, Belle & Sebastian, David Byrne e Beck são alguns dos fãs da banda. Conheça ou não suas músicas, o que você escuta hoje, qualquer coisa, tem no DNA a herança mutante.

Assim, quando Tom Zé entrou no palco para cantar “2001” e “Qualquer Bobagem” – a novidade da setlist –, o público vibrou. Mais do que parceiro nas composições, era uma forma de homenagem de fãs, influências e contemporâneos.

Arnaldo Baptista já não tem a mesma presença de palco. É verdade, o show mostrou que ele não se locomove nem participa com desenvoltura no palco. Seu microfone está mais baixo do que os demais. Fazem relação com Brian Wilson, outro “maluco” gênio que voltou a se apresentar e a gravar – seu show de 2004, no TIM Festival, foi histórico.

Arnaldo Baptista, autoexilado em Juiz de Fora, recomeçou a surgir em 2004, quando lançou “Let it Bed”. Da sua tentativa de suicídio em 1982, do afeto que ronda sua relação com Rita Lee, ressurge o “lóki”, como Brian Wilson mexeu no baú para soltar “Smile”, o disco perdido do Beach Boys.

Arnaldo é ovacionado uma, duas, três vezes. Seu nome é gritado pela platéia. Emociona ao cantar “Dia 36” – “Tudo começa outra vez, esquece e não pensa mais”.

Chega “Balada do Louco”. Um arrepio toma conta de quem está no parque da Independência. Sérgio Dias apresenta a banda em “A Minha Menina” e diz: “É um grande prazer poder dizer ‘nós somos os Mutantes’”. E fecha: “Este show é a prova de que tudo é possível”.

Após o bis de “Bat Macumba” e “Panis et Circences”, o show deveria terminar, mas o público não arreda o pé, e os técnicos religam os equipamentos. A banda volta para repetir “Balada do Louco”. E vai embora.

Ao redor, assim foi o show. Lá no meio do espetáculo, quando “Cantor de Mambo” começou, dedicada a Sérgio Mendes, um grupo de crianças, ao lado do palco, começou a brincar de roda. Dançou por mais quatro, cinco canções. A chuva, que castigou a cidade pela manhã e deixou algumas áreas em estado de atenção, deu uma trégua. O que se viu foi uma ameaça constante não acontecer, e apenas uma névoa tomou conta do Ipiranga. O pessoal da limpeza parava por momentos para assistir ao show, na área em frente ao palco. No meio da apresentação dos Mutantes, o Corpo de Bombeiros localizou a sétima vítima do acidente do metrô.

São Paulo continua. “Vivemos na melhor cidade da América do Sul”, mas “as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”. Talvez a alegria que tomou conta da platéia seja efêmera, “mas louco é quem me diz e não é feliz, eu sou feliz”.

Ô cidade sofrida...

* Aparte para contextualizar. Naquele janeiro, a cidade sofria, para variar, com as fortes chuvas de verão e os constantes alagamentos. E convivia com a tragédia do desabamento do buraco do metrô.

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