01/07/09

Mergulho na neve

Em meio à discussão sobre os livros de Will Eisner nas escolas públicas, uma HQ recém-lançada faz lembrar obras de Salinger.

Aparte. Instituições de São Paulo, Santa Catarina, do Paraná e Rio Grande Sul querem vetar obras como "Um contrato com Deus" e "O sonhador" por acharem de linguagem "forte" para os jovens, assim como "Aventuras provisórias", de Cristovão Tezza. Ao mesmo tempo, permitem títulos de Jorge Amado. Enfim.

"Retalhos", de Craig Thompson, um calhamaço de 590 páginas, é uma preciosidade. Relato um tanto autobiográfico, o livro se passa no meio oeste americano, onde Craig, cercado pela neve e a opressão da família cristã, tenta superar a barreira da infância e adolescência.

Dado como esquisito pelo seu perfil retilíneo, Craig envereda pelo desenho. Cria mundos imaginativos com seu irmão, no quarto isolado da casa onde dormem. Na escola, é o garoto rejeitado. Até conhecer Raina.

A paixão adolescente transforma o mundo de Craig, o levará a crescer e confrontar a vida. Narrado todo em preto e branco, com imagens que representam a culpa cristã com imensa criatividade em meio ao universo jovem, o livro é o similar a "O apanhador no campo de centeio", de Salinger.

Tão brutal quanto, tão profundo quanto, "Retalhos" passa longe, tanto no texto como na iconografia, de uma graphic novel juvenil. A forma como Thompson investiga as sensações de Craig é precisa, ao mesmo tempo que abre espaço para o leitor delirar. Craig tem que lidar com abuso sexual, a opressão familiar, a culpa cristã, a rejeição escolar, os maus tratos de colegas enquanto busca seu lugar. Thompson entrega uma HQ em que nada é fácil e claro, mas que permite mergulhar nesse mundo e se envolver com a história.

Além disso, a tradução do título do livro para o português é um achado. "Blankets" (cobertor, colcha, coberta) se transformou em "Retalhos". Um presente dado por Raina a Craig explica a tradução, de uma sensibilidade ímpar.

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