O camisa 10
Lembro do dia do jogo, vagamente, afinal lá se vão 30 anos. Mas recordo que fiquei com medo de uma goleada. Afinal, o Flamengo era o time do Zico. Eu, torcedor do Palmeiras, apenas começava a entender o futebol e achava que não daria para vencer no Maracanã. Qual não fui minha surpresa quando abri o jornal no dia seguinte e lá vi que o Palmeiras não só havia vencido a partida como também aplicara um 4 a 1 que não deixava dúvida.
O time do Zico era falível, mestre Telê provava. Está certo que depois daquele jogo o Palmeiras foi só ladeira abaixo, movimento inverso ao do Flamengo. Telê saiu, foi para a seleção, consagrou-se paralelamente ao esquadrão rubro-negro, campeão brasileiro no ano seguinte, para depois conquistar a América e o mundo.
Naquele tempo, em que os ídolos alviverdes sumiam e a falta de títulos mergulharia o time num quase ostracismo, Zico era um alívio. Era o Pelé da minha geração, assim como Flamengo era o Santos - claro, guardada a devida proporção. Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, assistir a um jogo do Flamengo era diversão, prazer, algo que poucos times conseguiram legar nos últimos 20 anos - o Palmeiras de 1996?
Nunca vi num estádio Zico com a camisa do Flamengo, só assisti com a da seleção brasileira, um jogo contra a Bolívia no Morumbi, em 1985. Foi meu ídolo da seleção de 1982 - era tanta a admiração que lembro até hoje que nosso time de futebol, lá da rua onde morava, decidiu que ninguém poderia colocar o 10 na camisa do Brasil, pois todos queriam ser Zico; eu, então, optei pela 6 do Júnior.
Zico era a referência, o cara para quem se torcia independentemente da camisa, algo raro hoje - quem reuniria o talento e o carisma de Zico para superar barreiras clubísticas? Ídolos há aos montes, mas talento falta. Kaká? Cristiano Ronaldo? Ronaldinho Gaúcho? Messi? Quem sabe Zidane... Todos lá fora. Ronaldo? Reconheço que aquele primeiro gol contra o Santos, na Vila Belmiro, foi digno de Zico, dominar um chutão, fazer com que a bola fique grudada, é coisa de Zico. Mas, pena, não é mais o Ronaldo das arrancadas, esse sim talvez rompesse barreiras.
O documentário "Zico na Rede", de Paulo Roscio, reativa a memória e mostra o quanto ele era mágico, um sopro nos 15 anos em que ficamos órfãos do seu futebol, após a despedida definitiva do gramado. Zico explica como fazia os gols, suas manhas, estratégias, malandragens. Enquanto ouvimos seu depoimento e o de companheiros e jornalistas, os olhos se deliciam com gols, gols de falta, de cabeça, de improviso, decisivos, importantes, comuns, gols de tudo quanto é jeito, gols que não fez, mas deu a companheiros - Nunes na final do Mundial...
Renato Maurício Prado define com perfeição a genialidade de Zico - "O lance genial nasce de uma dificuldade absolutamente inesperada" -, o jogador capaz de transformar adversidades em pura magia. A bola que quica no gramado e muda sua trajetória é a desculpa para um gol de placa - contra o Paraguai. Um passe que sai numa velocidade inferior faz com que Zico raciocine rapidamente e mergulhe para marcar aquele que ele chama de o gol mais bonito de sua carreira, com a camisa do Kashima, um gol apelidado de "escorpião".
Pena que o filme esteja somente em um cinema em São Paulo e em outro no Rio de Janeiro. Na capital paulista, apenas uma sessão, para os cariocas, duas sessões, sempre na hora do almoço. Ver Zico jogar e marcar na tela grande é prazer certo - o futebol na tela grande nos dá outra dimensão, assim foi com "Pelé Eterno".
E aquela hora do almoço passa sem se perceber. São exatos 58 minutos em que o futebol reencontra o talento, reaquece a memória e lembranças do garoto que viu, uma vez no campo e dezenas pela TV, o maior jogador de sua época atuar e fazer história.

2 comentários:
Não lembrava dessa sua admiração pelo Galinho. Mas a verdade é que ele encantou todo mundo que tem hoje a nossa idade. Era tão bom vê-lo jogar: o drible seco, o chute certeiro com as duas pernas, a visão de jogo (lembra daquele passe que ele deu pra Sócrates fazer o primeiro gol contra a Itália, em 1982?). Engraçado que só o vi jogar ao vivo, ainda criança, numa partida entre Flamengo e Itabuna, nessa cidade do interior baiano, imagine. Sinto falta de Zico, e fico me perguntando se sou um completo ignorante sobre futebol quando ouço dizerem que Ronaldinho Gaúcho e outros tantos são melhores do que ele foi. Talvez nem Maradona tenha sido, mas aí pelo menos é uma briga boa.
Desculpe o comentário gigante, e depois, se der, leia um texto que escrevi sobre Zico no blog, o título é Sobre Heróis e Reminiscências. Só que esse é bem afetivo.
Abração e parabéns pelo texto.
Lembro do seu post, já tinha lido. Você lembra do passe que ele deu para Sócrates em 1982. E eu lembro do passe que ele deu para o Branco em 1986, que gerou o pênalti que ele iria perder. Milimétrico. Preciso. Isso porque ele estava machucado. Não temos mais referência hoje. Pena. As conversas de futebol eram muito mais interessantes há 10, 15, 20 anos.
Até mais
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