Observações - O negócio da morte
Parece uma pousada daquelas instaladas na montanha, assim que se chega ao portão. Colinas verdes, um silêncio raramente incomodado pelo barulho da rodovia próxima. Seguranças na entrada indicam onde estacionar e para onde se dirigir.
"Velório na sala 5."
É um complexo pensado para a morte. Dezenas de vagas de estacionamento, a tradicional capela ecumênica e os locais de velório. A partir daí começam os tais "diferenciais" que equipes de marketing adoram repetir.
Um salão enorme, com sofás espalhados, um local que alguém mais modernoso chamaria de lounge. Silencioso e gelado, sem decoração, apenas os sofás. É chamada de sala de estar. Uma lanchonete. Serviços pontuais. Floricultura, "a preços acessíveis", como diz a plaquinha que se repete a cada canto do complexo.
Plaquinha que diz também para você procurar a equipe de vendas, insistentemente. Em todo o lugar em que se anda é possível encontrar a plaquinha chamando para a equipe de vendas. Dá a sensação de que eles têm medo de perder clientes caso saiam de lá sem passar no plantão de vendas. Afinal, quem voltaria lá apenas para comprar uma gaveta, disponíveis em seis modelos - duas delas, inclusive, com área de serviço.
Fico imaginando o que seria essa tal área de serviço no subsolo, ao lado de caixões.
Tem também um sala de velório vip, claro. Se em todo lugar existe um canto vip, por que no final da história também não haveria um?
A paisagem é limpa, verde, plana, nada daqueles mausoléus imponentes. Nada, só uma lápide no gramado, homogeneizado. Na colina, centenas de campas. Os vasos de flores indicam os que estão ocupados. Nos canteiros, regadores pendurados em ganchos, com torneiras ao lado, estão disponíveis para o visitante.
E ao longo do trajeto, da parte baixa do complexo até a parte alta, onde estão os gramados, mais placas. Tudo bem orientado.
O morto tem cep, que indica a colina, a quadra e a campa. Ficamos sabendo, pelas placas que só é permitido colocar até seis vasos, desde que pequenos. Que as flores devem ser escolhidas de forma a não destoar do conjunto. Flores de plástico, então, são proibidas de um jeito peremptório.
Não é permitido dar gorjeta aos funcionários com a intenção de obter serviços "diferenciados" - o mesmo "diferenciado" que o complexo vende como vantagem é proibido caso o visitante tente encontrar uma atenção a mais. Nada de "suborno", então, ou, quem sabe, "corrupção", por lá não pode. Assim, na hora da morte, todos têm os mesmos direitos e, pelas orientações das placas, os mesmos deveres.
Quando dizem que o enterro será às 10h, tenha certeza de que será às 10h, nem 10h01, nem 9h59. Estará tudo pronto.
No silêncio da colina, apenas o barulho de cimento, pás e carrinho de mão - algo que, imagino, em breve será suprimido para que o visitante possa ter o silêncio absoluto. Claro que o complexo teria que desapropiar os moradores do morro vizinho, um amontoado de moradias típico da periferia de São Paulo, que já começaram a preparar o almoço de domingo com um pagode audível a centenas de metros.
Assim, depois de uma madrugada gelada, passada num velório, os visitantes se despedem e retomam a vida. Vida que segue pela estrada.
Pois São Paulo já não consegue enterrar seus mortos na própria cidade. Para tal, toma-se a rodovia, alguns pagam até pedágio para apresentar seus cumprimentos ou para lembrar de quem se foi. Os cemitérios estão imigrando, deixando a cidade, procurando lugares ermos.
Mas a cidade insiste em persegui-los. O pagode ao lado da colina não sai da cabeça.
Como não sai da memória o triste ritual cristão de velar um corpo por horas. Um caixão aberto, com parentes e amigos a acompanhá-lo enquanto não chega a hora do enterro ou da cerimônia de cremação. Durante horas. O sofrimento encontra sua pior tortura, pois o caixão não deixa escapá-lo.
Então, encontramos abrigo nas conversas periféricas, para escapar daquela tênue tensão que o caixão aberto emite - e emitirá até a hora do enterro. Agora, a tensão se encontra com os constrangimentos, com conversas de táxi ("tá frio hoje, né", "parece que vai esfriar mais amanhã", "precisava ver de madrugada"), futebol e, a pior de todas, perguntas da vida pessoal.
Pessoas que você nunca viu - pelo menos não lembra nem de passagem - te chamam pelo nome e perguntam do seu trabalho. Só que falam de um cenário de cinco anos atrás, e aí é preciso explicar tudo o que aconteceu de lá para cá. Alguns fazem perguntas retóricas apenas para ter certeza de que estão falando com a pessoa certa ou para mostrar que se lembram de algo - "Mas você mora em Pindamonhangaba, né", "Como vai seu trabalho no consultório, é isso, certo?".
Padres fazem perguntas na missa final, aos presentes, como se alguém, naquele momento, estivesse disposto a prestar depoimento, depois de mais de 14 horas de velório, um frio de rasgar, pão de queijo insosso e cafés aos litros.
Pergunto-me para quê tanto sofrimento. Se a morte já é por demais dolorida, por que deixá-la mais para quem fica? Lembro de um filme - talvez "Por uma noite apenas", de Mike Figgis... - em que o personagem de Robert Downey Jr. pede para que sua morte não seja velada, quer uma festa, com música, dança e bebida, e os amigos assim fazem.
Os complexos capitalizaram a morte e hoje são grandes negócios.
Nós, enquanto isso, ficamos a buscar o sofrimento na morte. Já basta a própria.

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