Pensam que sou louco...
Poucos artistas se permitem abrir em entrevistas, longos perfis ou documentários. No Brasil, esse "controle" de imagem é intenso, como se a preservar uma privacidade que a profissão extingue.
Arnaldo Baptista, em "Loki", permitiu-se. O documentário, vencedor do voto popular na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, narra a trajetória do compositor, de sua juventude até o retorno dos Mutantes.
O filme é conduzido pelos depoimentos de Baptista, entremeados pela pintura de um quadro - exibido por completo no final. Ele não poupa nenhum assunto, trata do amor por Rita Lee com rara lucidez, fala do fim do casamento, da tentativa de suicídio e da sua recuperação, ajudado pela atual mulher, Lucinha Barbosa, no exílio de Juiz de Fora.
O filme vai fundo tanto na música como nas relações com Rita e as drogas para compor o quadro. Para falar da música, convoca gente como Lobão, Rogério Duprat (em entrevista de arquivo), Gilberto Gil, Tom Zé, Nélson Motta, Sean Lennon e Kurt Cobain (arquivo). Parceiros de banda (Dinho, Liminha e Sérgio Dias) se unem a Zélia Duncan para explicar o papel de Arnaldo na história da banda - Rita Lee não quis participar do filme
(Ah, Caetano Veloso não fala, nem em imagem de arquivo... Talvez seja o único artigo produzido no Brasil em que CV não mete o bedelho.)
"Loki" lança cenas gravadas no histórico show que os Mutantes deram em São Paulo em 2007, para demonstrar a reverência dedicada a Arnaldo Baptista, em imagens que marcaram a cidade naquele ano.
Artista raro na discografia nacional, Arnaldo influenciou gerações de músicos no Brasil - ecos se encontram até hoje. Ao mesmo tempo, é desprezado pela indústria. Não existe um disco solo de Arnaldo em catálogo. Seu retorno às composições, "Let it Bed" (2004), produzido pelo pato fu John, foi lançado pela revista de Lobão, "Outra Coisa", já extinta. "Lóki?", considerado por muitos dos entrevistados como um dos melhores álbuns gravados no Brasil, teve tiragem pela Baratos Afins e sumiu. Arnaldo Baptista é ignorado no Brasil.
O documentário tenta colocar as coisas no lugar. Produzido pelo Canal Brasil, tem poucas cópias em exibição. Pena, merecia mais espaço nos cinemas, na TV. Talvez o DVD venha compensar.
No final, temos a sensação de ter assistido um filme de amor. Do amor por Rita Lee, por sua atual mulher, pela música, pela vontade de sobreviver. Algumas feridas não se fecham, mas permitem reconhecer os caminhos a seguir.

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