Saiu da cabeceira
Elaine Brum é uma bela repórter. Dona de um texto interessante, olhar atento e pés que não se contentam em rodar a redação, que necessitam de pisar as ruas, Eliane se diferencia nesse mar de semelhanças em que se transformou o jornalismo brasileiro - suas reportagens em "Época" atestam.
Já tinha lido "O olho da rua" (link para o Google Books, em visualização parcial), coletânea de reportagens que investigavam um país à margem.
Seu "A vida que ninguém vê" é também uma coletânea, desta vez da coluna que escrevia para o "Zero Hora", onde começou. Disposta a tratar de personagens invisíveis, Eliane foi à caça desse universo em Porto Alegre e entorno.
Encontra o homem que trabalha no aeroporto mas nunca andou de avião, outro que é um colecionador das coisas esquecidas da capital gaúcha, o cego que vive de gritar os prêmios de loterias, pessoas encontráveis diariamente, cotidianamente, e que talvez por isso mesmo sejam despercebidas. Ela dá voz a eles.
Texto redondo, faro agudo, olhar preciso, tudo muito certinho. Eis o problema. Tornou-se fórmula e escapismo retratar miseráveis, pobres, esquecidos. Fica relativamente fácil encontrar nesse universo personagens dignos de uma reportagem, de uma coluna. E é nesse ponto que Eliane escorrega, ao tratar tudo com tanta intensidade, como se culpada, e a leitura acaba por se arrastar. Repete-se. Talvez se lidos semanalmente ganhem outra percepção.
Facilita para o cansaço o fato de que o livro resume suas colunas, então, encontra-se na leitura um eixo editorial. Mas será que não existem personagens curiosos, vivos, ricos de história em outros segmentos? Por que sempre nesse mundo miserável?
Com as reportegens, Eliane escapou da amarra dos invisíveis e encontrou outros. Neste "A vida que ninguém vê", a leitura se cansa lá pelo meio. Deixe o livro de molho. Volte a ele depois. Fica mais digerível.

2 comentários:
OI Dr Balla!
Quanto tempo! Interessei-me por essa crítica, porque acabei de ler o "O olho da rua". Sem sombra de dúvidas, a Eliane Brum é brilhante. Ela dá uma lição de apuração, faro, o tal feeling de repórter. O que me chamou atenção é que, conforme as suas palavras, também acho que "ao tratar tudo com tanta intensidade, como se culpada, e a leitura acaba por se arrastar". Isso é perceptível mesmo no "Olho da rua". Ainda não li "a vida que ninguém vê", mas confesso que o melhor da obra da Brum é o texto que ela relata os bastidores. Sinceramente, fiquei mais fascinada com o que nessas passagens.
Parece que abordar a história de miseráveis, mais do que qualquer outra classe social, se tornou fórmula. E muito utilizada. Acho que é pelo fato de haver um consenso de que essa realidade emociona mais o leitor. E se tornou aquele famoso lugar comum que você tanto falou na consultoria que fez conosco aqui em Uberlândia.
Como sempre, Dr Balla, adorei o que escreveu. Aproveito para manifestar aqui meu repúdio pelo que aconteceu há algumas semanas, quando você foi difamado por alguns dos meus colegas. São pessoas que se voltaram contra aquilo que mais defendem (ou deveriam defender): a liberdade de expressão. E o fizeram da forma mais infantil e vergonhosa de todas.
Um abração,
Manuella
Dona Manuu, não liga não para esse povo. O recado era para dois "anônimos", mas parece que mais pessoas vestiram a carapuça. Enfim, não me incomoda. Siga em frente, nossa conversa é diferente da deles, você tem o que mostrar.
Beijo
Ricardo
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