Comunidade, identidade, estabilidade
Fiquei sabendo pelos jornais que o metrô criou uma nova forma de embarque na estação Sé, para quem vai para a zona leste de São Paulo, no final da tarde. Esse destino é um dos mais tumultuados, o fluxo de pessoas é maior do que as plataformas comportam. O que causa sempre um certo desconforto.
Tinha entendido que uma série de barreiras e um batalhão de "orientadores" fazem uma triagem e distribuem as pessoas por zonas de embarque, para determinados vagões. Achei confuso, mas se ajudasse o povo a tomar o metrô de volta para casa de um jeito mais civilizado já seria um avanço.
Mas eis que eu conheci parte do novo método de embarque. Não o das barreiras e dos "orientadores", mas o da sinalização. A foto, feita pelo celular, fala melhor.
No chão das plataformas, foram pintadas marcas que indicam o local exato onde o passageiro deve esperar o trem, como um batalha naval. Isso, às 18h, deve ser das coisas mais ineficientes já imaginadas.
Coisa de "Admirável mundo novo", mecanizada, robotizada. Certo é que embarcar no metrô de SP em determinados horários exige mais do que paciência, tal como um preparo físico que suporte o desafio de empurrões, chutes, apertos e afins.
Claro que faltam quilômetros de metrô para aliviar esse sufuco. A malha de hoje é um desenho que seria atual há 50 anos. Triplicar, como é o desejo do governo e as obras indicam, começa a aliviar, mas não resolve. SP precisa de no mínimo cinco vezes a quilometragem atual.
Com essa brincadeira de batalha naval, o metrô olha para o passageiro como um robô. É mais fácil controlar (ou tentar) do que planejar (e agir).
"Passou a mão pelos olhos, como se procurasse apagar da lembrança a imagem daquelas longas filas de anões idênticos nas mesas de montagem, daquelas manadas de gêmeos enfileirados na entrada da estação do monotrilho de Brentford...
Imagine uma usina cujo pessoal fosse construído por Alfas, isto é, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, com boa hereditariedade e condicionados de modo a tornarem capazes (dentro de certos limites) de fazerem livremente uma escolha e de assumirem responsabilidades. Imagine isso!"
("Admirável mundo novo", Aldous Huxley)

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