10/11/09

A cumplicidade possível

Há algumas imagens que são ícones de um amor romântico, idealizado. Coisas que dois parceiros adoram falar um para o outro, por exemplo, a vontade de envelhecer ao lado do companheiro, enfrentando os obstáculos da idade.

Um certo cansaço, uma falta de paciência, talvez uma dor aqui. Envelhecer sozinho amedronta boa gente, e uma viuvez precoce pode fazer com que essa gente case novamente, para não ter que passar a terceira idade - ou melhor idade, como dizem os manuais politicamente corretos - solitária, quem sabe por medo da solidão, que costuma ficar barulhenta com o passar dos anos.

A companhia estimula. As dores são iguais, as lembranças batem do mesmo jeito. Talvez o mais importante seja a cumplicidade. Melhor se vier com o tempo.

Um casal de idosos que mora andares acima do meu costuma me cumprimentar sempre que os encontro, no elevador, nos jardins em frente ao edifício, nas ruas do bairro. Às vezes, estão no banco do jardim, tomando o sol da manhã. Em outras, vão ao supermercado ou à padaria. Ou então estão somente andando, deixando o tempo passar.

Não sei os nomes deles - esta infeliz distância resultado de uma cidade que acha normal apenas o reconhecimento facial, algo que me culpo -, devem ter seus 60, 65 anos. Não sei se têm filhos ou netos, nem familiares.

Estão sempre bem humorados, fazem os comentários clássicos sobre o tempo, discutem sobre o troco da padaria, caminham de mãos dadas, ela com um pouco mais de dificuldade, no seu físico mirrado, ele, com marcas da idade, mas com mais vigor.

Olho para eles e vejo que aquele clichê romântico é possível. Não conheço a história desse casal, mas a felicidade com que os dois vivem, felicidade que é transparente nos momentos em que os flagro, entrega que existe algo mais do que a vontade de querer passar o resto da vida juntos.

Lembrei desse casal quando vi esta foto da National Geographic, na seção Photo of the day. A neta registra a avó arrumando o chapéu do avô antes de uma foto na plantação de cevada, na Nova Zelândia.
Eles foram casados por quase 60 anos. E aquela foi a última colheita do avô.

1 comentários:

João disse...

Belíssimo post.