11/11/09

Das trevas ao fim das baterias

A conversa some de repente. As luzes se apagam, apenas uma luminária insiste em sobreviver, apenas por alguns segundos, vai piscando até se exaurir. Lá fora, apenas o luar, de uma noite nublada. Luzes de emergência, faróis de carros, luzes de geradores.

A energia não volta.

Descubro que em outros cantos houve picos de luz, mas não a queda.

Com o fim da luz, em meio à noite de terça-feira, surge a dúvida: o que fazer agora? Olho sem querer para a luz de repouso do laptop e me reanimo, há uma solução para a noite, ainda cedo, pouco mais de 22h.

O celular me ajuda a guiar para desligar as tomadas, tirar o laptop do seu lugar e levá-lo a outro canto. Retomo um trabalho até a bateria acabar. Lembro do iPod, com outro audiolivro armazenado. Infelizmente, a bateria está no fim, ouço pouco mais de 10 minutos.
A bateria do celular também vai abaixando, enquanto bipa com a sucessão de mensagens.
22h30: toda sp ta no escuro
22h31: sp, rj e rs..
22h44: sp, rj, rs, pe e parte de mg
22h55: a folha saiu do ar. G1 fala sobre pane em itaipu
23h44: 800 cidades sem luz. Previsão de 1 ou 2 dias para reestabelecer as linhas de transmissão
23h49: ta recebendo as msgs?

Sim, recebia as mensagens, só não me manifestava porque a bateria estava baixa, uma daquelas infelizes coincidências. Até que me lembrei que tenho guardado um telefone de fio, que não precisa de energia para funcionar. Fui até ele, instalei e recuperei as minhas linhas de transmissão.

Depois, agoniado com a falta de sono característica para o horário, me fiz lembrar que, sim, eu tenho velas em casa. Acendi umas cinco, deixei-as ao redor da poltrona da sala e me armei de um livro. Li sem esforço, numa cena setecentista.

De tempos em tempos, me debruçava na janela olhando para um mar de prédios todos na escuridão, com as ruas já silenciosas, imaginando um possível caos na cidade. Hospitais, metrôs, cinemas, restaurantes, bares, avenidas, cruzamentos, saídas de escolas, a falta de luz gera uma incerteza com a qual não estamos preparados a lidar.

Estranho olhar para os edifícios escuros, como se fossem peças abandonadas, num local devastado. Somos bichos de luz, tais como aqueles insetos que rodeiam lâmpadas em dias quentes. Já passa da 1h quando apago as velas e vou para a primeira tentativa de sono. O escuro, de alguma forma, me estimulou. A sensação de "o que eu posso fazer agora?" ficava a me perturbar, pois sabia que não havia nada mais a fazer.

Um segundo iPod me alivia com uma seleção curta de músicas, o suficiente para acreditar que o sono havia chegado. Eram 2h, e a luz ainda não voltara. Sem saber o que havia acontecido, com poucas informações, abriu-se uma espécie de hiato. O que incomodava não era tanto o escuro, mas o fato de não saber. Se havia transmissão de TV e internet para outros lugares, não me conformava com o fato de não conseguir ter uma informação.

Mas e daí, estava lá com as velas e o livro, com os últimos recursos de baterias, com um telefone que me conectava ao mundo - mundo que ou tivesse telefone semelhante ou não fosse atingido pelo blecaute. Delírios ficcionais surgem, criando universos fantasiosos em meio à escuridão, imaginando cenas de Hollywood, invasões hackers, um caos destruidor. Até que o sono não resistiu.

Às 3h05, lembro imediatamente de uma música do Legião Urbana, "Eu era um lobisomen juvenil": "Teve torcida gritando quando a luz voltou". Vou ao interruptor do quarto para ter certeza. Aguardo uns 10 minutos antes de religar a geladeira. Volto a dormir, com uma vontade imensa de ligar a internet, vencido pelo sono e pelo restante de escuridão que ainda havia para aproveitar, sem saber se a escuridão atiça instintos, provoca criatividade ou gera abstinência.

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