Espírito estimulado
Num intervalo de poucas semanas, saíram três livros de Elias Canetti, "Sobre os escritores", "Festa sob as bombas" e "Sobre a morte". Li o primeiro, reunião de aforismos, anotações e breves ensaios sobre escritores e o ato de escrever.
Canetti escreve de forma pessoal, como se fosse um diálogo com um diário. Seus textos podem ter páginas ou uma linha para que ele diga o que pretende. O espaço é irrelevante, ler os textos de Canetti sempre gera uma certa provocação nos espíritos.
Trechos
"O que um poeta não vê não aconteceu."
"A pergunta, a terrível pergunta: uma pessoa realmente é capaz de mudar?
No 'Banquete', Platão diz que sim, como se tivesse acabado de ler Heráclito. Eles carregam o mesmo nome durante toda uma vida, diz ele, e são outros, tudo neles, dentro deles, é sempre diferente.
Não confio nisso, não estou muito seguro. Sei onde sou sempre o mesmo que sempre fui. É difícil enxergar por nós mesmos onde somos diferentes."
"Nos 'Pensamentos', Pascal sempre interrompe, o que conta a seu favor. Cada um monta as peças de outras formas. Elas ficam melhor sem serem montadas."
"Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo. Talvez pudesse ser parecido com ele, se eu não fosse eu. É a primeira vez que considero a possibilidade de um outro nascimento para mim, e isso só por amor a Stendhal."
"Ainda prefiro Deus a Tolstói."
"Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo."
"Existe uma tensão legítima no escritor: a proximidade do presente e a força com que ele repele; a nostalgia do presente e a força com que o escritor torna a abraçá-lo. Assim, o presente nunca pode estar próximo o bastante. Assim, o escritor não tem como repeli-lo para suficientemente longe."

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