Palavras
Do blog de André Forastieri
Last Dance
Maria Amélia foi pra balada. Balada de tiazinha, claro: Donna Summer no Credicard Hall com uma amiga.
Com cinquenta anos, dois filhos, tá ótimo – Hot Stuff, Bad Girls, bom pra dançar, pra reviver a adolescência nos anos 70, pra lembrar como a vida é boa.
Era a noite do apagão. Fim de show, sem transporte público nem táxi fácil, mais de uma da manhã, Maria Amélia ofereceu uma carona para a amiga, que mora no Jabaquara.
Demorou. O trânsito na Avenida do Café estava travado. Luz na rua não havia. Estavam quase chegando. O Fiesta Preto avançava devagarinho, metro após metro.
Um motoqueiro aproveitou a escuridão. Encostou ao lado do Fiesta preto de Maria Amélia e apontou a arma. Ela pisou no acelerador. O motoqueiro apertou o gatilho duas vezes e fugiu.
A bala calibre 38 atravessou o cérebro de Maria Amélia Leite Roque Taiana.
Segundo o Ministro da Justiça, Tarso Genro, o apagão foi um “microincidente”.
Outra coisa é o alto escalão do governo federal adjetivar incidentes de forma a ignorar as consequências. Para a família da Maria Amélia, passou longe de microincidente. Faltam perspectiva e uma pitada de bom senso.
Claro que a questão política falou mais alto, o partido logo saiu correndo para minimizar possíveis efeitos eleitorais. Mas não custa nada medir as palavras e demonstrar um pouco mais de respeito com quem sofreu algum dano na noite do blecaute.

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